nada faz sentido no meu país
aqui não cabem o rigor do big ben,
o exotismo do taaj maal
e até o cristo do corcovado
foi adaptado para um enorme saca-rolhas em lisboa
neste rectângulo hidráulico
de meia-dúzia de acres de solo arável
não proliferam gênios
que o nobel consagra
nem estrelas
que o firmamento de hollywood caprichosamente apaga
neste meu país, godos, vikings e outros avulsos hunos
despendem o seu incomensurável tempo em grandes férias,
atravessando-as no tempo das férias grandes dos nossos putos,
por vezes atravessando os nossos putos durante as férias
e por falar em putos:
as sirigaitas e os galfarros de cá
— os de hoje e os de sempre —
também não fazem sentido
não fazem mesmo qualquer sentido
(como tudo o demais,
acrescente-se,
tinha-se evitado a redundância)
este é, pois, um português país
onde cedo os meninos deixam de brincar
onde cedo os estagiários na pré-velhice
morrem de acidente vascular cerebral
onde tarde deixamos de trabalhar
onde cedo nos levantamos para tocar os bois
onde frequentemente mentimos
tão bem
também
sobre as causas próximas das nossas felicidades
e acerca dos remotos efeitos dos nossos quebrantos
onde viramos vidas página sim, página não...
sim,
virando páginas,
novo ciclo em nossas vidas,
prometemo-nos um irreal mundo novo em tudo melhor:
um microondas no fim do mês
um novo amor para a semana
um mais florido canteiro qualquer dia
refeição melhorada em dia de natal
(mas que belo é o natal
— coitadinhos é dos putos
agarrados àquela merda
no casal ventoso — passaí mais bolo rei...)
no entanto nova guerra floresce
num ignoto canto do hemisfério
novos mortos a pesar nas nossas consciências
apesar de não termos consciência
dos velhos vivos que nos pesam
amores?
talvez...
num devaneio de fim-de-semana,
fim de estação,
cio de gatos,
pólen das árvores,
primaveras saídas de caixinhas de surpresas
que distraidamente abrimos de quando em quando,
não sabendo nunca quando parar de o fazer
amores?
talvez não...
ou talvez sim,
se deliberadamente os confundirmos com
carências
afectos
mão no rosto
mão na mão
dedos no mamilo...
o cabelo solto para que,
dentro do quarto, o vento o faça esvoaçar,
o agite,
o exorcize,
gemendo baixinho na cama
para que os miúdos não oiçam,
para que a velhota do rés-do-chão
e o tarado do segundo esquerdo
não escutem à porta
e vão contar a todo o bairro no dia seguinte,
alvorecendo o dia,
sepultando a noite de amor
também lá mora aquele senhor reformado da psp
com cinquenta e cinco anos apenas!
(parece que também lhe contaram o tempo de tropa).
conta lá no bairro histórias de áfrica,
foi dos comandos,
era matar ou morrer,
ficou-se pela primeira opção
é ele o nosso herói privativo,
o mais próximo,
o mais possível
com o rosto dele empreendo imaginar
os de nuno álvares pereira
e de fuas roupinho
à falta de melhor
são estes heróis assim que dão sentido ao meu país,
aqueles que cumprimentamos no minimercado,
no autocarro — onde viaja com bilhete de cão —,
no futebol ao domingo
e por aí adiante,
onde quer que se encontre pois é omnipresente
— a sua aposentação dá-lhe para isso —
é mesmo o único herói vivente conhecido,
respeitado e respeitoso,
monumento animado,
animador de sardinhadas
(não fora as espinhas e o cheiro nas mãos
e atrever-me-ia a petiscar uma delas
mas fico-me pelas febras e pela boroa),
cantador de fados e tocador de realejo
isto sim, é um herói:
confere sentido ao meu país
e honra, também,
dá-lhe grandiosidade e eloquência,
pois fala que se desunha
(de tudo e por tudo,
a propósito
e — quase sempre —
a despropósito também)
mas nem sempre isto foi assim alegre e soalheiro:
volta e meia acordávamos
com um certo amargor na boca
como se mais nada houvesse para além de nós
(o que é terrível quando não somos
nem heróis nem nada de especial)
e por, ainda por cima,
vivermos num país onde nada faz sentido,
com esta sensação de vazio,
de breu,
de torpor,
de acordar sem deixar de dormir,
dormindo sem sonhar,
adormecendo sem dormir
(é só escolher,
embora a ementa não seja vasta)
esta sensação percorria-nos a espinal medula
e órgãos adjacentes
e aquilo que não fazia sentido no tal português país
ainda menos sentido fazia assim
(se é que me posso expressar desta forma)
apetecia-nos dormir virando a cara para o lado
virando o corpo para o fado
virando tudo para o lado
virando o fado para o lado
entregando a alma ao fado
virando mais uma das milhentas páginas
que a nossa vida gera
parecendo ser apenas uma
(não nos deixemos enganar pelas imitações)
eram tempos diferentes,
em tudo diferentes dos de hoje
(oh, como são belos os tempos de hoje!...)
não havia:
nem emissões de televisão a cores,
nem cinemas com som tridimensional
e o colombo que havia
não era nenhum centro comercial,
pois o único com esse nome
então conhecido tinha morrido
havia já muito tempo
e não passava de um descobridor
de controversa procedência,
como uma carta sem remetente
ou um guarda-chuva esquecido no café.
era assim o meu português país
em tudo diverso do que hoje conhecemos
— diverso de todos os outros países conhecidos então —
em nada semelhante aos grandes países que hoje todos,
felizmente,
conhecemos,
tal como o conhecemos hoje assim,
tal e qual ele é.
era famoso o meu país:
pelos ditadores empedernidos
pela fome
pela hipocrisia
pelos desamores
pela polícia
e até, mais tarde,
pelas revoluções generosas,
sem precedentes,
sem exemplo
(sem futuro?…)
houve, porém,
belos momentos então,
a saber:
a canalha lado a lado com os militares,
as ruas com gente
(já deram conta que já não se ama na rua,
já não se ama a rua?)
gritando frases então na berra
e tantos,
tantos,
tantos outros
e muitos mais
que não fluem pois,
por serem tão irrealmente reais
mais parecem espuma de sonhos
em noites bem dormidas
e melhor amada.
agora, o português país
não é mais aquele rectângulo hidráulico já referido
é muito mais que isso:
é história! — dizem-me
é cultura. — convencem-me
é uma terra de oportunidades… — mentem-me
sem deixar de ser um país em eterno leasing,
em soturno decrescendo,
numa vertigem de assombro,
num envergonhado passado próximo,
num escondido futuro distante,
num académico presente ausente
dum pretérito imperfeito
(um ingénuo superlativo absoluto simples
em formato dialéctico)
onde a espiral da história busca expirar
pois este é um bom país para se morrer:
é limpo e sossegado,
de brandos costumes até
(palavras brandidas adrede)
pois é,
perde-se por aqui a medida do tempo,
o espaço também não ajuda
— isto é tudo relativo,
estão a ver? —
e, quando a cama é curta
algo nos fica de fora:
por sagres já caiu muita coisa ao mar
empurrada pela sobrelotação
da grandiosidade ufana
que povoa este meu português país pequeno
e deus é minha testemunha
— é para isso que serve deus —
que não há nada pior do que um país pequeno
armado em grandioso!
aliás,
até há:
pior mesmo que um país pequeno armado em grandioso,
só uma cidade pequena armada em metrópole...
deve haver ainda pior,
quiçá...
mas quedo-me por aqui
pois não me calha nada mortificar-me
com outras ridículas e mesquinhas exemplificações
que mais não são senão edições de bolso das descritas...
e assim, tergiversando,
consegui,
talvez,
ter por breves momentos a atenção de uns quantos,
o que, satisfazendo o meu ego,
pouca mais valia acrescentou
ao stock existente desses uns quantos
(gostaria de, eventualmente,
conseguir acabar este texto ainda hoje,
arrumando-o num canto qualquer,
arranjando-lhe uma providencial coda,
um consolador gran finale,
mas afigura-se-me que não me presentearei
com tal desprazer...)
© Carlos Clara Gomes