caminhávamos desnudos
pela praia sôfrega,
mão na mão,
prometendo mutuamente
sob a luz prolixa do luar,
o mundo e as estrelas
qual luar?
chovia abundantemente
como não usava acontecer naquele mês
mas alguém se importava?
subimos os esconsos de uma escada
que subitamente se postara na nossa rota
e fomos ter com o arco-íris que,
ali, sem mais nem menos,
se edificara,
com aquele intenso luar,
com aquele imenso luar,
com aquela chuva abundante
e lá estávamos nós de mão dada,
caminhando sobre o arco-celeste,
no arco-da-velha
até que a furibunda manhã
viesse reclamar o nosso despertar,
trazendo com ela a abominável realidade,
a indescritível lufa-lufa,
o terrível medo de nós mesmos
e assim se sepulta mais uma noite de amor,
mais um irreal estádio de sofrimento e gozo
para que o dia — esse canalha —
nos lembre que é ele o senhor,
que é ele o rei,
que é ele a estrela,
enquanto a noite é uma puta insaciável,
adúltera,
meretriz,
promíscua,
ninfomaníaca,
ávida de sexo e álcool,
de fumo e orgia,
de amor e morte
e nós, coitados de nós,
facilmente acreditamos em tudo o que nos é dito.
e temos vergonha da noite,
o que faz com que também
tenhamos vergonha de nós próprios
e levantamo-nos contrafeitos
rumo a um eventual banho
que eventualmente purifique nossos corpos,
que os lave da saliva e mel derramados,
que faça esquecer o fragor da contenda
na exiguidade da sala de combate
e cobrimos nossos corpos com pudor,
com vergonha,
não vá alguém reparar
nas marcas na carne como ferro em brasa
— gado que fomos nessa noite —
ferrando um no outro o seu próprio sinete
© Carlos Clara Gomes

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