sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
cantiga da rua
voa,
ave nocturna,
o sol já se pôs
para lá daquele morro
o último autocarro
já leva as formigas da cidade
néons escrevem
nos céus da noite
frases alusivas:
compre isto,
compre aquilo,
garantem que o seu
é o melhor de todos os produtos
mulheres ainda meninas
deixam-se devassar à porta das pensões
e nas estações dos comboios:
para elas começa outra estação
carros partem,
carros chegam.
quantas almas
os povoam?
quanto amor alugado
pernoita
nos seus estofos?
proxenetas invadem a noite
ostentando brilhantina,
marcas de baton,
cicatrizes de afiadas navalhas...
(ferimentos de guerra...)
haverá em todo este folclore
uma nesga de humanidade,
uma réstia de ética,
um não-sei-quê de amor?
sonhos?
só o pó da estrada
e as noites mal dormidas e,
talvez,
um crucifixo ao pescoço
a trazer panaceias
as certezas?
correr santos pousada
e a rua da alegria
fugindo
à ramona
e à fome
um dia,
verás,
essa rua será tua
© Carlos Clara Gomes
politicamente correcto
dantes
era bem mais fácil
perceber as coisas
mas isso era dantes…
depois soçobrou qualquer coisa,
qualquer coisa inexplicável,
qualquer coisa daninha,
qualquer coisa...
ainda hoje ando para descobrir o quê...
andava eu então entretido
a pastorear utopias,
a apascentar sonhos,
a gastar o meu prazo
de ser generoso
— todos nós temos estes prazos
em dado tempo,
todos nós somos feitos
de matéria cuja validade
está datada,
bem datada,
amarrada aos nossos corpos
e,
mais duro ainda,
colada com lacre às nossas almas —
passando estes tempos
estamos fora de validade:
deixa de ser correcto fazer isto,
fazer aquilo e,
quem teimosamente o fizer,
ai jesus que está demodé
ou
é um nostálgico
ou um saudosista
não!
querem fazer dos nossos putos
adultos sem graça,
querem tirar-lhes o sonho.
querem que os nossos adultos
não sejam mais putos
e, feitas as contas,
o que resta?
apenas tempo para fazer mais putos,
mais fornadas de putos que,
mais tarde,
serão adultos sem graça,
sem sonhos…
apenas com o sonho
de ter tempo para fazer mais putos,
mais fornadas de putos que,
mais tarde,
serão adultos sem graça,
sem sonhos
e por aí fora…
até ao inexorável (será?)
fim (haverá?)
deste ciclo vicioso
e viciado,
desta terra a desbravar
cuja floresta
não deixará de ser virgem,
deste mar por descobrir
sem nunca se atingir
o horizonte
cuja ténue linha
se esgota no além,
no tempo e no modo
— andando à roda,
brincando às cegas,
à cabra-cega,
olhos vendados,
buscando alguém
na vertigem do desassossego,
no fiasco duma revolução —
onde?
onde estão aqueles
dias às cores
cujo primeiro deles
foi cinzento?
(truque para enganar incautos...
dia com cara de ser um dia de merda;
ou então o cenário de um golpe militar
à moda latino-americana...)
ah, fora eu poeta
e cantaria em verso
a indizível
descrição do amor
com a facilidade
com que redijo
um rol de lavandaria,
com a agilidade
com que elaboro
uma lista de compras em hipermercado...
e faria
um qualquer poema apaixonado,
uma única e singela estrofe,
um poema de amor ardente
todavia
por mais que me esforce
não consigo ser poeta.
cada um
é para o que nasce
quedo-me, pois,
por prosas enviesadas
e trôpegas
sem remo nem rumo
sem oráculo nem pitonisa
sem teorema nem corolário
sem fuso nem roca
todas elas, porém,
arrancadas
do mais ínfimo átomo
que habita
as entranhas desta alma
apaixonada
© Carlos Clara Gomes
arco-irís
caminhávamos desnudos
pela praia sôfrega,
mão na mão,
prometendo mutuamente
sob a luz prolixa do luar,
o mundo e as estrelas
qual luar?
chovia abundantemente
como não usava acontecer naquele mês
mas alguém se importava?
subimos os esconsos de uma escada
que subitamente se postara na nossa rota
e fomos ter com o arco-íris que,
ali, sem mais nem menos,
se edificara,
com aquele intenso luar,
com aquele imenso luar,
com aquela chuva abundante
e lá estávamos nós de mão dada,
caminhando sobre o arco-celeste,
no arco-da-velha
até que a furibunda manhã
viesse reclamar o nosso despertar,
trazendo com ela a abominável realidade,
a indescritível lufa-lufa,
o terrível medo de nós mesmos
e assim se sepulta mais uma noite de amor,
mais um irreal estádio de sofrimento e gozo
para que o dia — esse canalha —
nos lembre que é ele o senhor,
que é ele o rei,
que é ele a estrela,
enquanto a noite é uma puta insaciável,
adúltera,
meretriz,
promíscua,
ninfomaníaca,
ávida de sexo e álcool,
de fumo e orgia,
de amor e morte
e nós, coitados de nós,
facilmente acreditamos em tudo o que nos é dito.
e temos vergonha da noite,
o que faz com que também
tenhamos vergonha de nós próprios
e levantamo-nos contrafeitos
rumo a um eventual banho
que eventualmente purifique nossos corpos,
que os lave da saliva e mel derramados,
que faça esquecer o fragor da contenda
na exiguidade da sala de combate
e cobrimos nossos corpos com pudor,
com vergonha,
não vá alguém reparar
nas marcas na carne como ferro em brasa
— gado que fomos nessa noite —
ferrando um no outro o seu próprio sinete
© Carlos Clara Gomes
registo de ocorrências num rectângulo hidráulico (por acaso, ibérico)
nada faz sentido no meu país
aqui não cabem o rigor do big ben,
o exotismo do taaj maal
e até o cristo do corcovado
foi adaptado para um enorme saca-rolhas em lisboa
neste rectângulo hidráulico
de meia-dúzia de acres de solo arável
não proliferam gênios
que o nobel consagra
nem estrelas
que o firmamento de hollywood caprichosamente apaga
neste meu país, godos, vikings e outros avulsos hunos
despendem o seu incomensurável tempo em grandes férias,
atravessando-as no tempo das férias grandes dos nossos putos,
por vezes atravessando os nossos putos durante as férias
e por falar em putos:
as sirigaitas e os galfarros de cá
— os de hoje e os de sempre —
também não fazem sentido
não fazem mesmo qualquer sentido
(como tudo o demais,
acrescente-se,
tinha-se evitado a redundância)
este é, pois, um português país
onde cedo os meninos deixam de brincar
onde cedo os estagiários na pré-velhice
morrem de acidente vascular cerebral
onde tarde deixamos de trabalhar
onde cedo nos levantamos para tocar os bois
onde frequentemente mentimos
tão bem
também
sobre as causas próximas das nossas felicidades
e acerca dos remotos efeitos dos nossos quebrantos
onde viramos vidas página sim, página não...
sim,
virando páginas,
novo ciclo em nossas vidas,
prometemo-nos um irreal mundo novo em tudo melhor:
um microondas no fim do mês
um novo amor para a semana
um mais florido canteiro qualquer dia
refeição melhorada em dia de natal
(mas que belo é o natal
— coitadinhos é dos putos
agarrados àquela merda
no casal ventoso — passaí mais bolo rei...)
no entanto nova guerra floresce
num ignoto canto do hemisfério
novos mortos a pesar nas nossas consciências
apesar de não termos consciência
dos velhos vivos que nos pesam
amores?
talvez...
num devaneio de fim-de-semana,
fim de estação,
cio de gatos,
pólen das árvores,
primaveras saídas de caixinhas de surpresas
que distraidamente abrimos de quando em quando,
não sabendo nunca quando parar de o fazer
amores?
talvez não...
ou talvez sim,
se deliberadamente os confundirmos com
carências
afectos
mão no rosto
mão na mão
dedos no mamilo...
o cabelo solto para que,
dentro do quarto, o vento o faça esvoaçar,
o agite,
o exorcize,
gemendo baixinho na cama
para que os miúdos não oiçam,
para que a velhota do rés-do-chão
e o tarado do segundo esquerdo
não escutem à porta
e vão contar a todo o bairro no dia seguinte,
alvorecendo o dia,
sepultando a noite de amor
também lá mora aquele senhor reformado da psp
com cinquenta e cinco anos apenas!
(parece que também lhe contaram o tempo de tropa).
conta lá no bairro histórias de áfrica,
foi dos comandos,
era matar ou morrer,
ficou-se pela primeira opção
é ele o nosso herói privativo,
o mais próximo,
o mais possível
com o rosto dele empreendo imaginar
os de nuno álvares pereira
e de fuas roupinho
à falta de melhor
são estes heróis assim que dão sentido ao meu país,
aqueles que cumprimentamos no minimercado,
no autocarro — onde viaja com bilhete de cão —,
no futebol ao domingo
e por aí adiante,
onde quer que se encontre pois é omnipresente
— a sua aposentação dá-lhe para isso —
é mesmo o único herói vivente conhecido,
respeitado e respeitoso,
monumento animado,
animador de sardinhadas
(não fora as espinhas e o cheiro nas mãos
e atrever-me-ia a petiscar uma delas
mas fico-me pelas febras e pela boroa),
cantador de fados e tocador de realejo
isto sim, é um herói:
confere sentido ao meu país
e honra, também,
dá-lhe grandiosidade e eloquência,
pois fala que se desunha
(de tudo e por tudo,
a propósito
e — quase sempre —
a despropósito também)
mas nem sempre isto foi assim alegre e soalheiro:
volta e meia acordávamos
com um certo amargor na boca
como se mais nada houvesse para além de nós
(o que é terrível quando não somos
nem heróis nem nada de especial)
e por, ainda por cima,
vivermos num país onde nada faz sentido,
com esta sensação de vazio,
de breu,
de torpor,
de acordar sem deixar de dormir,
dormindo sem sonhar,
adormecendo sem dormir
(é só escolher,
embora a ementa não seja vasta)
esta sensação percorria-nos a espinal medula
e órgãos adjacentes
e aquilo que não fazia sentido no tal português país
ainda menos sentido fazia assim
(se é que me posso expressar desta forma)
apetecia-nos dormir virando a cara para o lado
virando o corpo para o fado
virando tudo para o lado
virando o fado para o lado
entregando a alma ao fado
virando mais uma das milhentas páginas
que a nossa vida gera
parecendo ser apenas uma
(não nos deixemos enganar pelas imitações)
eram tempos diferentes,
em tudo diferentes dos de hoje
(oh, como são belos os tempos de hoje!...)
não havia:
nem emissões de televisão a cores,
nem cinemas com som tridimensional
e o colombo que havia
não era nenhum centro comercial,
pois o único com esse nome
então conhecido tinha morrido
havia já muito tempo
e não passava de um descobridor
de controversa procedência,
como uma carta sem remetente
ou um guarda-chuva esquecido no café.
era assim o meu português país
em tudo diverso do que hoje conhecemos
— diverso de todos os outros países conhecidos então —
em nada semelhante aos grandes países que hoje todos,
felizmente,
conhecemos,
tal como o conhecemos hoje assim,
tal e qual ele é.
era famoso o meu país:
pelos ditadores empedernidos
pela fome
pela hipocrisia
pelos desamores
pela polícia
e até, mais tarde,
pelas revoluções generosas,
sem precedentes,
sem exemplo
(sem futuro?…)
houve, porém,
belos momentos então,
a saber:
a canalha lado a lado com os militares,
as ruas com gente
(já deram conta que já não se ama na rua,
já não se ama a rua?)
gritando frases então na berra
e tantos,
tantos,
tantos outros
e muitos mais
que não fluem pois,
por serem tão irrealmente reais
mais parecem espuma de sonhos
em noites bem dormidas
e melhor amada.
agora, o português país
não é mais aquele rectângulo hidráulico já referido
é muito mais que isso:
é história! — dizem-me
é cultura. — convencem-me
é uma terra de oportunidades… — mentem-me
sem deixar de ser um país em eterno leasing,
em soturno decrescendo,
numa vertigem de assombro,
num envergonhado passado próximo,
num escondido futuro distante,
num académico presente ausente
dum pretérito imperfeito
(um ingénuo superlativo absoluto simples
em formato dialéctico)
onde a espiral da história busca expirar
pois este é um bom país para se morrer:
é limpo e sossegado,
de brandos costumes até
(palavras brandidas adrede)
pois é,
perde-se por aqui a medida do tempo,
o espaço também não ajuda
— isto é tudo relativo,
estão a ver? —
e, quando a cama é curta
algo nos fica de fora:
por sagres já caiu muita coisa ao mar
empurrada pela sobrelotação
da grandiosidade ufana
que povoa este meu português país pequeno
e deus é minha testemunha
— é para isso que serve deus —
que não há nada pior do que um país pequeno
armado em grandioso!
aliás,
até há:
pior mesmo que um país pequeno armado em grandioso,
só uma cidade pequena armada em metrópole...
deve haver ainda pior,
quiçá...
mas quedo-me por aqui
pois não me calha nada mortificar-me
com outras ridículas e mesquinhas exemplificações
que mais não são senão edições de bolso das descritas...
e assim, tergiversando,
consegui,
talvez,
ter por breves momentos a atenção de uns quantos,
o que, satisfazendo o meu ego,
pouca mais valia acrescentou
ao stock existente desses uns quantos
(gostaria de, eventualmente,
conseguir acabar este texto ainda hoje,
arrumando-o num canto qualquer,
arranjando-lhe uma providencial coda,
um consolador gran finale,
mas afigura-se-me que não me presentearei
com tal desprazer...)
© Carlos Clara Gomes
meu passarinho ardente
outrora,
com a cantarinha ao ombro,
sopesando contrapesos,
passavas na velha quelha
abrasavas as almas
que te miravam as pernas,
espreitando pela saia
e sorrias para a gente
já ninguém sabe de ti:
dizem que foste para longe
esgravatar outro solo
num qualquer reino distante
eras a deusa do bosque
quando colhias gravetos.
em serenatas esparsas
cantavam-te vários sonetos
hoje só fica a janela
onde à noite te postavas
esperando que o luar
viesse lavar teu rosto
já ninguém sabe de ti.
só dizem que voltarás
numa quaresma esquecida.
cá te fico esperando.
por onde andas, cotovia?
meu passarinho ardente
© Carlos Clara Gomes
a noiva da noite ou retrato de mulher no cais durante
como tens passado?
foste noiva na tempestade
(quanto é difícil ser noiva...
quão fácil é haver tempestades...)
hoje a tempestade amainou
teria mesmo sossegado
ou será mais uma inquieta noite?
ou vives desassossegada
por teu noivo ter partido,
deixando-te no molhe,
noiva para sempre,
amor adiado?
talvez um dia
aporte ao teu umbral.
talvez um dia
a porta chie pesada nos gonzos
e ele entre
com um cheiro de mar na bagagem
e uma flor tropical na lapela
e te inunde a vida
com histórias vividas
e te inquiete o sono nessa noite
afagando o teu adormecido seio esquerdo
e o desperte
tantos anos anos depois
daquela noite
em que ficaste noiva da noite,
noiva na noite,
noiva de um sonho
que com ele viajou,
para trás o cais deserto,
teu esguio vulto acenando adeuses,
o lenço acenando,
o lenço enxugando teu olhar de mar,
perdido no mar,
perdido na vida
para quando?
até quando?
por quanto?
algo paga sua ausência?
algum sonho acalentas
em teu franzino peito.
sonhas com,
quem sabe?
— a vida dá tantas voltas —
um regresso intempestivo,
um furacão que o devolva
ao teu peito incendiado
rezas para que,
por lá,
ele tome inquietações
e volte correndo
a aninhar-se em teu colo,
buscando encontrar quietudes
na macieza da tua sempre pele de menina.
rezas para quê?
porventura achas que ele ainda vem?...
por que não segues os sábios conselhos
que frequentemente te entregam:
procura quem te console...
esquece-o!...
se ele te amasse já teria voltado!...
e assim te vais mortificando,
indecisa...
balançando
entre a evidência
e o letargo
e se ele já te esqueceu?
e se vives a humilhação
de nem sequer chegares
um dia a ser viúva?
mas,
e se,
de repente,
alguém bate à porta
e te levantas,
sôfrega e tropeçante...
e ali está ele...
não,
não é ele...
afinal é apenas
uma carta...
(será dele?
esta vem de longe,
traz um selo de outra cor...)
e se nessa carta
alguém teve o mau gosto
de te libertar do teu compromisso,
de te quebrar a grilheta
que tu própria amarraste ao tornozelo?
sim?
e, se alguém
(certamente num assomo de crueldade...)
resolve escrever-te laconicamente
e, com esse acto,
desvanecendo teus sonhos,
arrefecendo teu coração,
impedindo-te de continuares voando,
voando,
voando...
voando para sempre?
sim...
e se esse alguém
te escreve
lamentavelmente informamos
do passamento de seu noivo,
acrescentando alguns escassos,
sórdidos,
pormenores,
descrevendo o fatal evento
— coisas que as lágrimas
já te não deixam ler —
coroados pateticamente por
sentidas condolências?
ou então
— pior ainda –
se é ele mesmo quem te escreve
pelo seu próprio punho
— ai!…
tu reconheces a grafia…—
informando que lastima,
mas está apenas a cumprir
um português porvir
que não só o predestinou à diáspora
como também lhe reserva
um radioso futuro
na elaboração da tropical mestiçagem?...
sim,
e se ele resolve escrever-te
comunicando que casará
para o mês que vem...
o que,
atendendo à data da carta,
significa que a boda
já se consumou
há mais de um mês
(outros tempos virão
em que as notícias
se saberão de pronto,
lestas
e funéreas)?
e assim te vais entregando
a um sonho,
paulatina
e desenfreadamente,
não obstante a raposa
te rondar o redil
(ah...
como as tentações da carne
são fortes...)
e cruzas as pernas em desatino,
o cabelo em desalinho
e a alma sabe-se lá em que estado...
ou então, se um final feliz ocorrer
— o que é raro nestas histórias,
fica o aviso —
e ele (sim, ele ... )
te chegar pelo alvorecer,
no primeiro benfazejo raio do dia,
sussurrando amo-te ao teu ouvido,
beijando-te até à alma...
dançando contigo
uma valsa fora de moda?
então voarás,
serás leve,
baterás tuas asitas de mariposa
e concluirás que dormiste um sono
de muitos anos
e que já não és mais noiva da noite
e que o dia já nasceu
e dir-lhe-ás
esta noite tive um pesadelo horrível,
nem vais acreditar...
mas ele,
porém,
acreditará.
© Carlos Clara Gomes
guerrilheiros urbanos (os conjurados)
julgas que chegas assim,
despertando demónios adormecidos,
forças ocultas guardadas no sótão,
literatura subversiva
onde só eu ousava remexer?
forças incontroláveis que nunca tive o ensejo,
que nunca tive o desejo de exorcizar
e agora, queres assim sair disto,
para atormentares outra alma,
a tua própria alma?
mas o desejo persiste,
uma angústia, uma inquietação.
e consome cá por dentro
mordendo-te o corpo,
beliscando-te a alma,
turvando o raciocínio
exasperada,
cabeça em desalinho
e o corpo em sobressalto,
em constante desatino,
sem lógica,
sem nexo
usando métodos de conjurado
daqueles que, tenazmente,
se determinam a tomar o poder,
correndo muitos deles
o risco de hipotecar a alma a satanás,
mergulhas em clandestinas actividades,
em soturnas actividades,
em nocturnas actividades,
tendo a noite por testemunha
e o dia como agasalho,
escudando-te
nas trevas do dia radioso,
de óculos escuros,
não vá alguém sondar-te a alma
e lá vais soltando as feras,
deixando-as invadir a incauta cidade
que, de todo,
ignora o que se desenrola,
se desenovela nos seus subterrâneos,
que ignora até a existência
desses mesmos subterrâneos
por mais à frente dos olhos
que se deponham,
por mais visíveis que eles sejam,
mas que são absolutamente impalpáveis
para o humano mortal em geral
e que só os pássaros,
as flores
e algumas espécies de frutos conhecem,
tão crípticos
e críticos
são esses esconderijos,
tão solenes e proletários,
tão soberbos e humildes.
e dizes que pretendes abandonar a conjura...
e eu rio-me,
não sei porquê,
mas rio-me:
dizes que poderás não comparecer
à próxima reunião,
à planeada actividade...
que correste perigos vários
e que corres o risco de,
involuntariamente,
claro está,
trair a nossa organização clandestina
mentira...
estás apenas com miúfa,
tens o cuzito apertado pelo medo
e esqueces os ensinamentos teóricos
que aprendeste em manuais de revoluções,
em clássicos filmes comprometidos,
em romances de doutrina escolhidos a dedo.
e lá vem um chavão,
um cliché,
um lugar-comum,
coisa habitual,
dizes que não é por ti,
apenas proteges os teus,
apenas os resguardas
(resguardando-te também a ti...
isto acrescento eu)
mas os camaradas impacientam-se,
acham que estás
com uma crise ideológica qualquer,
acham-te com um comportamento estranho.
estão de acordo contigo
quando dizes que podes comprometer a revolução
e sou forçado a dar-lhes razão…
mas não te escudes com os teus,
todos nós temos os nossos entes queridos,
todos nós ambicionamos protegê-los
da hipocrisia,
da violência,
da barbárie.
e,
por isso mesmo,
somos conjurados.
não é por nós,
é por eles...
e é por nós todos,
e até por quem nem sequer o deseja
e, de todo, o ignora, que fazemos isto:
que nos imolamos,
que resistimos a tudo,
às tentações diversas
— que são tantas, acredita... —
mas a revolta não acontece por acontecer
como se fosse uma mimosa que,
sabemo-lo,
em maio se veste de amarelo.
a liberdade toma-se,
conquista-se,
pois é o último dos inexpugnáveis castelos
a conjura precisa de ti,
do teu esforço,
do teu sacrifício
— e dos teus medos até,
de todos os teus fantasmas que,
cedo ou tarde,
te impelirão à tomada do poder —
e só serás livre quando libertares toda a gente,
começando pela tua própria pessoa,
libertando,
logo a seguir,
todos aqueles que nem imaginam
quão doce é a liberdade...
e, só assim,
livre,
poderás dizer que lutaste pelos teus
isso sim:
é um egoísmo
pelo qual vale a pena viver.
© Carlos Clara Gomes
produtos voláteis
carrego comigo
matérias inflamáveis,
tento evitar uma centelha,
uma faísca,
uma chama,
fogos-fátuos até
e vou acarretando
fluidos combustíveis
de pés nus
sobre o frio fio da navalha
percorro
áridos territórios,
ilhas desertas,
desertos gelados,
estepes e sertões,
tundras e savanas
escondo-me das feras,
acoito-me das criaturas perigosa,
não me afoito
no sol cáustico
nem nas nuvens da trovoada,
nem me exponho
a relâmpagos
ou a auroras boreais
percebe-se facilmente
como sou vulnerável às chamas,
como facilmente deflagro
trago comigo
matérias inflamáveis:
paixões e revoluções
pretendo mudar o mundo,
mudar-me a mim mesmo,
protagonizar uma esperada
— desejada? —
explosão
há vários focos hibernando
(não façam lume,
pode tudo isto rebentar!...)
como evitar um cataclismo,
um holocausto,
um conflito global?
como evitar um sinistro?
um sinistro incêndio benévolo?
não façam fogo!
se alguma faísca ocorrer
isto ainda se incendeia!...
não façam nada
que me faça detonar,
algo que ligue a ignição...
trago comigo
matérias inflamáveis,
materiais de perigoso manuseamento!...
percorro auto-estradas,
quelhas,
ruas
e outras vias
ando célere
pela cidade adormecida
sob o efeito de um forte sedativo
corro o risco
de adormecer ao volante,
corro o risco
de embater contra
um poste,
um amor,
uma esperança
— um qualquer casual acaso
que deflagre
todo este conteúdo
(basta uma faisquita,
um fósforo,
um pirilampo,
um luzicu...) —
serei eu um kamikaze,
um piloto suicida
a bordo de lesta nave,
ao leme dum funesto camião,
dum petroleiro à deriva?
não!...
visto um fato-macaco,
fato-de-vôo,
tecido em amianto
e tenho as agulhetas assestadas
a qualquer eventual
e inoportuno foco de incêndio
detecto colunas de fumo
e optimizo rescaldos,
tentando sempre
manter-me afastado
de fagulhas perigosas,
de brasas e de piriscas,
do sol a pino ao meio-dia,
até das noites de lua-cheia
— não vá o diabo tecê-las! —
trago produtos perigosos,
matérias inflamáveis
(facilmente inflamáveis...)
não desfruto estacionamento
nem posso abrandar meu passo...
passo a todo o momento
por várias formas de estar,
várias vidas mal amadas,
vários sonhos entretanto
desfeitos por essas vidas...
carrego comigo
vários produtos inflamáveis,
não sei ao certo para onde,
não sei ao certo para quê.
apenas com uma certeza:
busco incendiar o mundo,
transformá-lo num braseiro...
sou pirómano
psicopata
terrorista
franco-atirador
caçador furtivo
cão-de-fila
quinta-coluna
revolução!
e,
assim,
vou mordendo pela calada,
pela calada da noite,
pela noite calada,
pelas caleiras das casas,
pelas casas das pessoas,
pelas barracas,
pelas tendas de campismo,
pelas tendas de campanha...
ardo em fogueiras de campo
— atenção!
não façam fogo! —
transporto fluidos combustíveis,
fluidos viscosos,
bons para queimar,
queimaduras de último grau,
degraus,
esconsos,
sótãos e águas-furtadas,
gárgulas,
ameias e barbacãs,
cãs,
cabelo grisalho,
calvícies...
trago comigo
vários inflamáveis líquidos,
sólidos princípios voláteis
(como são volúveis, os princípios,
quando nos fardamos de adultos,
quando vestimos a irresponsabilidade
de sermos responsável gente
que mente,
que oculta,
que no oculto da mente
sonha com deflagrações,
com o ímpeto duma explosão,
com o impulso de dançar agarrado
na praça central da cidade,
com a semente da revolta,
com o germe da insurreição...)
e,
assim,
vamos erguendo guindastes,
gruas
e outros mecanismos,
engendrando articulações diversas,
enlaces,
nexos,
concatenações...
e até,
contraditoriamente,
rupturas e desenlaces,
sempre que nas nossas vidas,
nas nossas mortes em vida,
trilhamos obscuras rotas,
sombrios becos,
como um sonho lindo
alvorecido pelo piar da coruja,
pelo noitibó,
pelo mocho
e quando somos assaltados
por um frémito,
um frenesim que castramos
(nós próprios!)
trago comigo
produtos inflamáveis,
secretas revoluções...
dás-me lume?
© Carlos Clara Gomes
pandora
não resististe
e abriste a caixa
de presto
se soltaram os elementos:
os demónios e os ventos
que nela estavam contidos,
que nela viviam albergados
e inundaram
as vidas das pessoas,
assaltaram
as lojas de conveniência
e,
aparentemente saciados,
estenderam-se brevemente
junto ao portão da minha casa
arrotando fogo e enxofre,
cuspindo labaredas
e tecendo basalto
não resististe,
foi mais forte do que tu...
ainda se, ao menos,
a recato observasses
o desenrolar dos eventos
mas aquela sua calma
não é senão aparente e breve
em breve,
recompostos da ressaca,
rumarão a outros desassisos,
tocarão fogos
e brotará o sangue
das almas incautas
e pernoitarão negregados
sob o tapete da porta principal,
nas flores ornamentais,
no armário embutido.
e ali ficarão
a atormentar-nos o sono,
a confundirem-nos os sonhos,
a gerarem-nos
calafrios e pesadelos,
fazendo com que
nos levantemos de noite
para com eles conversarmos.
e, quando a manhã chega,
nós,
de olhos enevoados
e cãimbras na alma,
partimos para mais um dia,
bebido o primeiro café,
fumado o primeiro cigarro
(com ele ardemos
e em suas golilhas de fumo
nos penduramos)
e, deste jeito,
eles nos vão consumindo,
de guarita a uma propícia ocasião,
urdindo ciladas e embustes,
esparrelas e costilos,
sendo nós os imprevidentes pardalitos
mas ocorre
que é gostoso
assim andar consumido
e que,
sem tais demónios à solta
não exercitaríamos nossos músculos,
não bateriam os corações,
não seria nunca igual,
de tal forma nos trazemos
enredados nesta trama
e sem compaixão de nós mesmos,
sofremos gostosamente
os padecimentos de uma fortuita irrealidade
durante os espasmos
duma sólida certeza
e andamos por aí
feitos tolinhos,
mendigando a nós próprios
amor-próprio e juízo
(armas indefectíveis
e indetectáveis pelos radares)
mano a mano
pegamos o bicho em pontas,
esta faena não é propícia
a emboladuras
e julgamo-nos por bitolas volúveis
que construímos e actualizamos
dia-a-dia.
certa mesmo,
só a morte,
etapa lógica
e inexorável da vida,
madastra vida,
doce vida,
destino e fado,
quem sabe?...
e, contudo,
os pássaros arrulham
todas as manhãs
saudando o dia,
saudando a vida,
não obstante o caçador
ter colocado trapaças.
e apesar de terem escapado lestos
à armadilha da véspera,
ao raspão do tiro assobiando nas suas penas,
voltam a entoar chilreios
mal a madrugada se dissipa,
negligenciando a atalaia,
ébrios de vida
e embriagados de desejo
© Carlos Clara Gomes
portuguelo
é assim:
por lá já são quatro horas
mas aqui só é meio-dia
dizem que há lá outra lua
em tudo diferente desta
por aqui cresta o sol
quando por lá bate chuva
até há cá quem não saiba
a cor do frio da neve
pois é…
tanta água de permeio
e tanta milha ao largo
estou aqui à varanda
olhando para lá do mar
mas o vasto horizonte
seca meu olhar de sal
quando a água dos meus olhos
com a do teu mar se junta
quem sabe?...
um dia
vou num paquete
ou num disco voador
devorar todo este mar
que entre nós se colocou,
para nadar em teu corpo
e dormir entre teus seios,
esperando que a saudade
vá embora de meu peito
© Carlos Clara Gomes
as coisas que eu queria ser
eu queria ser
talvez um poeta lírico
que cantasse em fino verso
as paixões desencontradas
eu queria ser
talvez cavaleiro andante
pelejando dragões em fogo
em busca do santo graal
eu queria ser
objecto de contrabando
passando fronteiras, divisas,
outras linhas, marcas d’água
eu queria ser
pendura de motoqueiro,
navegador mercenário,
grumete de caravela
eu queria ser
campeão de salto-à-vara,
discóbolo e estafeta,
perna ágil, acelera
eu queria ser
o rosto da melodia
que busco como demanda
como a noite busca o dia
eu queria ser
talvez louco furioso,
castelão e contra-regra,
óleo de rícino, burel
eu queria ser
apenas uma andorinha,
sortilégio de quebranto,
pau-de-sebo, canto breve
eu queria ser
talvez o chico buarque,
o godinho ou o caetano,
fazendo só como eles…
eu queria ser
herdeiro duma fortuna,
índio, amazona, puma,
tejo, rio guadiana
eu queria ser
um habitante da tundra,
o solstício de inverno,
o equinócio de verão
eu queria ser
um gnomo efervescente,
um demónio-na-floresta,
um peregrino errante
eu queria ser
baterista e ferroviário,
alquimista e artilheiro,
cançonetista em saldo
eu queria ser
objectiva e diafragma,
entretela e uma fraga,
sendeiro em romaria
eu queria ser
um farol de marinhagem,
carlos gardel, prima donna,
santiago e espada
eu queria ser
embaixador em algures,
ordenança, praça e cabo,
medidor de terramotos
eu queria ser
liquidador, tributário,
popeline e terylene,
santo-de-pau-de-amieiro
eu queria ser
coqueiro, óleo dendê,
cachupa e cafriela,
mancarra e serviçal
eu queria ser
soneto, paraquedista,
guarda-chuva, alexandrino,
épico e desmedido
eu queria ser
talvez jornal vespertino,
campanário de igreja,
conspirador libertário
eu queria ser
arremedo de poeta,
reciclado amanuense,
olho-de-boi e lanterna
eu queria ser
somente um dia de sol,
peneirento, caso sério,
um guerrilheiro em trânsito
eu queria ser
um pardalito cinzento,
voando lesto e gaiato
sob a chuva pardacenta
eu queria ser
tudo isso e muito mais,
e ser arma e bagagem
ou tesouro de corsário
eu queria ser
um cabritinho montês,
um tango, uma milonga,
uma xota, um pasodoble
eu queria ser
película e fotograma,
antero e lampião,
sertão, favela, caatinga
eu queria ser
energia e protão,
molécula, átomo, néon,
big-bang e universo
eu queria ser
óleo diesel, álcool, fumo,
anti-matéria, caipira,
matuto e monangambe
eu queria ser
favo de mel e cruzeta,
orgasmo e placenta,
sémen, haste e corola
eu queria ser
tucano e guarani,
missionário e safari,
maputo, recife, olinda
eu queria ser
europa, áfrica, chile,
candelabro, psiché,
diadema de rainha
eu queria ser
ácido, vitríolo, colírio,
oração e funeral
e cangote de mulata
eu queria ser
sustentáculo de babel,
sodoma, gomorra, nepal,
escrínio de esmeralda
eu queria ser
uma espada vingadora,
torrente, automotora,
andrajo de vagabundo
eu queria ser
um dia, quando for grande,
eléctrico e trolley bus,
sacerdote, missa negra
eu queria ser
as ameias dum castelo,
barbacãs e fortalezas,
aríete e celtibero
eu queria ser
cidadão de marraquexe,
governador da crimeia,
imperador do ceilão
eu queria ser
trapezista e palhaço,
corda suspensa, terraço,
açoteia e telha velha
eu queria ser
a necrópole de gizé,
ou um soldado da fé
ou somente um turista
eu queria ser
bolina duma canoa,
caldo de cana, cachaça,
grogue, anis, absinto
eu queria ser
alecrim, tamanduá,
grego, fenício, acrópole,
síndroma, tédio e mar
eu queria ser
baleeiro nos açores,
zeca medeiros, cantor,
cineasta ou teatreiro
eu queria ser
algo líquido ou etéreo,
sólido estado gasoso,
velocípede, motoreta
eu queria ser
um zabumba e um triângulo,
locomotiva, enxada,
mangual, tear e roca
eu queria ser
um qualquer corpo celeste,
tijela de caldo verde
numa réstia de outono
eu queria ser
forno eléctrico, micro-ondas,
pasteleiro, garrafão,
rede de pano, nordeste
eu queria ser
a sandália dum romeiro,
o coldre, a cartucheira,
bandoleira, salteador
eu queria ser
pirata, pazes de tuy,
rei de ceuta e casablanca,
pianista de cinema
eu queria ser
conjurado, armadilha,
santo e senha, pacotilha,
seresta, repente, fado
eu queria ser
algo mais que só vontade,
queria apenas, na verdade,
viver sempre apaixonado.
(c) Carlos Clara Gomes
che
toquem sikuris
dancem os povos do mundo
hoje faz anos que morreu um homem livre
quando te conheci usavas aquela boina basca,
a estrela rutilando,
farol orientando-me na noite que cessaria
um ano depois do nosso encontro
conheci-te nas palavras
do cantor que empeçava
sua trova por
aprendimos a quererte
e, ali, entre as semicolcheias da guitarra,
o andar gingão dum caribe do teu plata,
as semicolcheias correndo lépidas
numa estrada que se assemelhava
à minha ibéria,
um frémito,
um arrepio,
invadiu-me então a medula,
as lágrimas compareceram
(ainda hoje assomam,
o que prejudica a afinação da voz)
pois, em toda aquela trova,
se relatava com um rigor enciclopédico,
com a virtuosidade dum fotógrafo de guerra,
o que tu foras,
o que tu és,
o que serás sempre...
e para mim foste o tal farol,
o exemplo,
o modelo,
o cliché.
alguém te chamou depois
de cristo guerrilheiro
(o que me deixou despeitado
e invejoso
pois gostaria de ter sido eu
o autor dessa expressão).
e nas picadas da serra boliviana
eu sigo tuas pegadas indeléveis,
intento incorporar tua tropa,
teu comando
ficaste como símbolo do sonho,
profeta de utopias,
partizan do mundo novo:
no teu rosto vejo os rostos de outros,
vejo os de joana d’arc,
steve biko,
zé do telhado,
maria da fonte
nos teus olhos de poeta
vejo-te mirar um admirável homem novo,
aquele que fabricaste com tua postura
de ti ficou-me o desapego pelo poder,
quedou-se-me a paixão da revolução
em dinâmicas de mares revoltos.
em ti encerras a virtude
do melhor homem livre:
aquele que liberta os outros...
és um depósito de centelhas
e fogueiras de campo,
fazes arder a chama da generosidade,
ainda que te queiram reduzir
ao poster
e à t-shirt
e enquanto carlos puebla
canta tua saga de viking generoso,
marinheiro das serranias de nuhancazú,
prossegues guiando minha conduta
(por que não seres o meu guru,
que mal há nisso?)
toquem sikuris
tambores legueros
dancem os povos do mundo
hoje faz anos que morreu um homem livre
e a traição?
quem te traiu sabia-te assim tão livre?
conheceria tua galharda estatura?
quantos trinta dinheiros
foram desembolsados pela delação?
(quanto valeste tu nessa venda,
em suma?)
e alguém se dependurou
depois
na figueira
como o fez o iscariotes?
nem sequer houve remorso?...
porém,
de que adiantou trair-te,
se o insidioso já gastou o dinheiro ganho,
enquanto tua memória persiste,
tua estrela cintilando na boina basca...
e quantos te perseguem ainda hoje?
quantas tocaias ainda hoje te são armadas?
quantos de teus prosélitos cedem ao medo,
à falta de força para sonhar?...
toquem sikuris
tambores legueros
cáscaras
dancem os povos do mundo
hoje faz anos que morreu um homem livre
mas que aventura, comandante!...
valeu a pena?
(parafraseando o outro,
não te conheceu,
passaste-lhe ao lado...)
valeu a pena morrer
alçando as paredes
de uma pátria dos humildes?
pergunto eu...
claro que valeu,
respondo eu...
vale sempre tudo
quando se persegue um sonho
quando, como tu,
se tem o olhar sonhador
de um poeta em armas,
quando,
como tu,
se tem a tenacidade
que inunda as almas dos profetas!
toquem sikuris
tambores legueros
cáscaras
dancem os povos do mundo
dancem milongas e bulerias
cantem rancheras e charreadas
hoje faz anos que morreu um homem livre
hoje faz anos que todos nascemos livres!...
© Carlos Clara Gomes
alguém sente sempre
pela enorme rede
de trama justa
passei
era de noite
e não fui notado
alguém sentiu, porém
alguém...
alguém que tudo sente
quando rascunho
o debuxo de um assombro,
de uma surpresa,
de um malmequer em julho
alguém que me recebe
em seus braços de ave solta,
de esbelto condor,
de águia real,
de ave das pradarias
© Carlos Clara Gomes
lá fora
lá fora chove em bica
caem sobre nós os estalidos
das corcódoas da lareira
que alimentamos
nos intervalos das nossas batalhas
aqui construímos nosso mundo
— nosso mundo de sofrer,
afinal —
mas lá fora
é que inventámos ser pássaros,
onde questionámos
uma dinâmica de massas
na penúria da tolerância,
na brutalidade da incompreensão
nas manhãs ocorrem
cotovias canoras
e outras aves multicores
e chilreantes
e o mar agita suas mantas,
seus lençóis,
suas fronhas sobre a areia da praia
em alvoroço,
estremecendo as rochas
mas nós cá estamos,
à lareira,
ocultos de olhares bucaneiros,
ao abrigo de malsins,
urdindo o reviralho,
conjurando estratégias
e outras metódicas soluções
visamos uma qualquer insureição,
quiçá armada
(quiçá violenta?)
e acabamos sempre
por optar pela legitimidade da democracia,
pelas escolhas dos cidadãos
e enquanto,
lá fora
(onde tudo, afinal, se passa…),
comboios partem e chegam
aqui,
nós arriscamos quedarmo-nos
por hipóteses nebulosas
de revoluções sem sucesso garantido,
uma vez que,
lá fora,
o sol brilha
e aqui é sempre espessa noite
(e nem sequer temos o luxo
do anonimato em plena mole)
somos quem somos,
foragidos com a cabeça a prémio,
posta a prémio por aqueles por quem lutamos,
por aqueles por quem nos crucificamos,
por aqueles por quem arrastamos
a pesada madeira
numa atroz via-sacra sem regresso,
coroada de espinhos
e exposta à chacota e ao dichote
mas lá fora é que é bonito!…
lá fora…
lá fora há oceanos e fragas,
coisas que só vislumbramos
em postais dos correios
e revistas do jet-set
com imagens de cancún
mas lá…
lá fora…
lá fora a vida ferve,
o turbilhão queima e devora o tempo…
os namorados atrevem-se
a dar as mãos
e até há quem enlace a amada pela cintura…
e o sol,
mesmo quando oculto,
sabemo-lo lá semeando centelhas…
enquanto nós vamos remexendo a lareira com a tenaz,
avivando um fogo condenado,
um fogo tão breve
– quase fátuo —,
enfatizado pelo discurso silencioso,
por olhares e aromas…
algures
(lá fora…)
crescem rododendros
e orquídeas
e mesmo os crisântemos têm sol,
repetindo-se,
redundando-se na função clorofilina
todas as noites,
como um maquinejar regular,
obstinado…
aguardando o astro rei,
a esfera solar,
mal o galo canta e se consuma a noite…
e, também,
mal os apaixonados amantes
descansam da orgia,
mal os zombies saem dos ataúdes
rumo a uma falsa vida
© Carlos Clara Gomes
tango improbable
dança comigo este tango,
rodopia no salão
(que noites trazes vestidas
na tua pele de princesa…)
dança comigo este tango,
esta guaracha,
este mambo
e pega na minha mão
enquanto a orquestra progride
e guia nossos passos soalho fora
dança comigo este tango,
minha rainha de tebas.
há quem inveje nosso requebro,
o nosso rodopiar
dança comigo este tango,
volteemos no salão,
enquanto meu braço prende
tua cintura delgada
dança comigo este tango...
ouves?
tiritiritiritiri…
o bandoneon reclama-te
reclama teu nome
que dita esta tragédia,
que anuncia
teus lábios ardentes
e húmidos
e quentes
dança comigo este tango,
esta história de amor e mar,
de cinema e cabaré
dança comigo este tango,
este grito cruciante,
este assédio,
este vento
dança comigo este tango:
só tu deténs o engenho
de me fazer voltear
dança comigo este tango,
assim mesmo:
como se pisássemos
sarça ardente
dança comigo este tango,
este lamento nocturno,
este dolor de mis penas
dança comigo este tango:
sou um ébrio marinheiro
de camiseta listada
e rojo pañuelo ao pescoço
dança comigo
vá lá…
dança comigo este tango,
furibundo,
calamitoso,
ingénuo
e sensual
(e obsceno, até)
dança comigo este tango,
quem dera não cesse a música
quem dera possas dançar…
© Carlos Clara Gomes
Pintura: José Aníbal Inurritegui
volta aqui
volta aqui
e afaga meu peito incendiado
volta aqui,
num arremedo de fado,
sou das nuvens
um eterno passageiro,
sou das vagas
um marinheiro adiado
volta aqui,
meu corpo está
ardendo nesta chama.
consumo os dias que faltam,
sou daqui um transeunte pasmado
e teus braços são agências de viagens,
és notária de marés e trovoadas
volta aqui,
sou caprichoso fedelho,
quero em ti viver bem-aventuranças
mas,
com despautério,
sais e entras
e re-entras na minha vida,
na minha pele,
esquecendo-te sempre
de fechar a porta dos fundos,
a dos pensamentos profundos,
de tudo o que absorvemos de nós e do mundo
mas…
… já te vais?...
volta aqui…
(c) Carlos Clara Gomes
o filme
os sonhos?…
são fumos da noite,
entrelaçando esparsas alegrias
com infelicidades correntes
os sonhos
não batem à nossa porta:
trazem com eles
a chave de casa
e estremecemos quando não aparecem
— ainda que sob a forma de pesadelo
gostamos de sonhar sempre —
por vezes os sonhos
proporcionam-nos desagradáveis momentos:
ali ficamos estremunhados
até percebermos o raio de sol,
as gotas de chuva que vivem na rua
os sonhos
são flashes,
fugazes,
etéreos,
breves e doentios,
que nos marcam
e condicionam toda a nossa vida
durante
os subsequentes dias deles sonhos,
até que sobrevenha outra noite,
outro sonho…
os sonhos
são o que são…
valem apenas
o que valem
e ninguém troca sonhos
por outros objectos,
ninguém faz uma retoma dum sonho
— já imaginaram:
“troco um sonho sobre a minha morte
pelo teu candeeiro de pé alto”
ou
“queres trocar o meu sonho assim-assim
por um leitor de cassettes
e dás mais cinco contos?” —
são altamente improváveis tais questões…
mas os sonhos…
esses demónios
expugnam-nos o sótão
a coberto da desfadiga
e inquietam nossos corpos
e nossas almas
e, sobressaltados,
amanhecemos sem recordar
o que sonhámos nessa noite,
nos últimos penosos minutos dessa noite,
nos primeiros saborosos minutos dessa noite
e afoitamo-nos,
por vezes,
escuro adentro,
improvisando
um sono sem sonhar
quando,
às claras,
improvisamos quase sempre
um sonhar sem sono
e vamos tropeçando
num daninho e manhoso elemento
fornecido por um sonho,
por esse calhorda!…
e somos povoados
por sonhos
de todas as espécies, famílias e géneros:
a cores e a preto-e-branco,
com filtros sépia ou cinza,
24 frames per second,
technicolor ou cinemascope,
dolby sorround
ou com som três dê
escrevemos assim
o script do filme da nossa vida
na névoa difusa dum sonho,
projectando-o no écran da nossa mente,
mentindo,
mantendo ilusões
como nos filmes, aliás…
(c) Carlos Clara Gomes
câmara escura
esperando
que dessem à costa
apenas escolhos
na areia ensopada,
trouxe-a o mar,
iemanjá
ou o fogo
(não me ocorre o orixá)
eu era apenas um espectador de vidas,
ocasional fotógrafo na cidade inquieta:
não dispunha de objectiva pronta
nem tinha o gatilho destravado.
apenas o dedo ágil,
pronto para o disparo
e vasculhou os cantos do meu castelo,
abriu as persianas que eu mantinha cerradas
para preservar meus mistérios,
para que a luz não queimasse o negativo
ao irromper na câmara escura
e dançou para mim
um solo de bailarina do bolshoi
ou a mourisca dança do ventre.
sucumbi à corrente no seu tornozelo,
aos dias correndo,
a eito e céleres,
e aprendi matérias
que nunca esperara aprender
quando aceitei o cativeiro:
aprendi cada dia
como uma surpresa
saborosa e cruel,
nefasta e terna
mas tão terna…
© Carlos Clara Gomes
canção para utopiar
e assim vou andando,
pisando o meio-fio,
ocasionalmente calcando lambris,
indiferente às viaturas transeuntes
que me circunvagam
e eu prossigo, transeuntemente,
indiferente às mesmas,
ao seu colectivo transe,
à sua demanda,
ao seu fogo-fátuo...
tão fátuo,
tão factual fogo,
tão feito de circunstâncias
e à medida das mesmas
por alguma inexplicável dislexia
emito trocadilhos,
trava-línguas,
que adquirem obscenas formas
— forneço assim
uns quantos neologismos
aos anais do palavrão —
e ocorre-me
(vejam lá!...)
que a asneirola
é também uma forma de arte!...
(invento coisas dessas
para dourar a pílula,
para que não seja tão penoso
a quem faz de meu interlocutor...)
daí que,
amarrado a uma plácida existência,
pálida e lassa,
arquitecto utopias,
castelos de cartas,
cartas-fora-do-baralho,
baralhando ideias...
e dou comigo enmimesmado,
mimando meus mais minúsculos gestos...
tentando, num audaz golpe de rins,
reinventar-me,
renascer,
renascer-me
esperando apenas que novo parto
traga uma personagem algo útil,
— algo fútil,
também... —
algo que abrande
este meu afã missionário,
esta minha indomável vontade
de amar o mundo...
de o sentir vivo e respirante
na ponta da minha língua,
de sentir virtudes nos seus pecadilhos...
de sentir suas veias latejando
descompassadamente,
como se fosse um puto
em pausa de correria da apanhada...
eu queria ser esse...
esse ser que eu teria que inventar...
que refazer...
como refazer tal ser?
e de quantas tentativas disporia eu?
ah...
quanto eu gostaria de esse condão ter...
de ter tal varinha de condão...
(c) Carlos Clara Gomes
observações feitas a partir duma construção lacustre
há no vento, há no fogo,
qualquer coisa minha, tua...
no ventre dos elementos
viajam as dores de parto de outrém
(para que porto?)
e detenho-me no tempo
ensaiando maremotos,
dilúvios,
alvoroços.
cada água-furtada é um tugúrio,
um asilo,
um refúgio...
cada telha é um esconderijo...
e um enorme terramoto
— cujo epicentro
foi detectado
no vão da tua escada —
ameaça a estabilidade
(já débil)
da minha construção lacustre
da minha palafita observo-te,
analiso-te lá longe,
onde usas pernoitar
— aqui tão perto,
aliás... —
e o carril da água na caleira,
esfuracando a tranquilidade da noite?
e o sol sorrindo amistosamente
pela furibunda manhã,
despertando os humores,
acirrando os amores?
e quando?
quando,
quando?
mas passam manhãs a eito,
a fio,
sem vir o sol.
e o que me chega é frio
sem o seu sorriso
a despontar à esquina...
és prometida,
protelada,
de soturnos ciclones.
e os tais ventos em epígrafe
descarregam
e (ocasionalmente) convocam:
cargas de água,
cachoeiras,
catadupas,
pingos de chuva,
neves...
e, tisnados pela lâmina dos frios,
nossos rostos ficam cortados,
gretados,
— fissuras abertas na pele —
pois estamos nus na pradaria,
gélido ermo...
aninhemo-nos,
pois,
um no outro,
mansamente...
ofereçamos nossos ombros
com reciprocidade
quero chorar no teu ombro,
sabias?...
(c) Carlos Clara Gomes
primaveras esparsas
dias passados em atalaia,
noites de velório,
guaritas
— ou, simplesmente,
mal dormidas —
na manhã,
os olhos esboroados
trazem na poeira da memória:
a espuma da noite,
soltas ideias que ventos agitam,
desprendendo-se de exóticos sonhos.
e intento alçar-me na cama,
levantar-me da sala de observações
onde toda a noite estive estendido
aguardando tua inspecção,
tua minúcia,
meus detalhes,
fadado que sou
a tal sorte de investigações
e percorro a cidade devoluta,
um sol sustenido ouve-se,
um cão uivando,
a sirene da fábrica
empreendendo alertas,
chamamentos,
sopram cíclicos outonos avulsos,
rorejantes,
plácidos.
trago as faces vermelhuscas:
uma soturna insatisfação
invade meus nervos.
perigosamente acerco-me
de reclames de coca-cola,
gentes sem rosto cilham-me,
às pessoas em geral me sonego,
não me declaro
em manifesto dos viventes:
sou um número, apenas
— o zero, periférico,
preferiria!...
o neutro, pode ser!...
até mesmo um negativo,
nunca, porém,
uma fracção,
incompleta,
vírgula qualquer coisa —
desvio-me de candeeiros,
polícias,
semáforos
e cagalhões
quem dera se ouvisse
o zeca cantando!...
quem dera...
no entanto,
imagino-o por cá
semeando ora concórdias
ora desacatos a toda a hora e momento:
consensos e revoluções,
aliterando compêndios,
cerceando compassos,
plantando notas,
palavras,
poemas,
ideias,
amores
— corações ao alto! —,
trazendo áfricas
para os nossos regaços...
mas a cidade
avança lesta para mim
(ou sou que me desloco
no seu seio?),
a cidade brilha
em fluxos e refluxos,
em repuxos de fontes luminosas,
águas possíveis para quem tanto mar deseja,
tanta vaga,
tanta onda
e tanto mar outra vez,
pois nunca é demais lembrá-lo.
e atracam no meu peito os navios,
paquidermes de ferro...
nos meus sonhos rodopiam
barcos de papel,
embarcações afoitas,
naufrágios
e trombas-d’água.
uma ou outra sereia
perturba meus ouvidos,
plantando sobre um recife,
um escolho,
uma jangada,
o cu que não tem...
serei eu um grumete,
marujo,
nautaquim?
ou,
simplesmente,
aquele finório que sonhou ser mareante?
não vem ao caso
pois já me acotovelam
na berma do passeio:
um claxon desperta-me,
uma puta sorri-me,
um polícia olha-me de soslaio.
fujo aos três
rumo à outra margem,
pisando a zebra,
esperando o verde.
uma vez lá,
fujo para o longe,
para o imenso,
onde não seja agredido
pelo reclame da sony,
onde a coca-cola
me não persiga,
onde este outono passe célere
e o seu inevitável inverno também,
onde a primavera se instale
e eu a aferrolhe numa gaiola,
só minha,
só para mim
—...para ti também,
talvez...
para todos,
enfim...
por que raio
quereria eu a primavera
se não a pudesse partilhar contigo?
e por que raio
a quereria só contigo
se não a pudesse
anunciar aos outros?—
ai quem dera
eu soubesse as primaveras gerir,
quem dera
eu pudesse seus caprichos entender...
© Carlos Clara Gomes
a noiva dos estios
andavas por mansas luas adejando
feita ave
mesmo nua
carregavas os aromas da cidade
trazias na algibeira
manhãs de sóis
encobertos
e dos cabelos
soltavas
raios de luz
mal despertos
eras noiva dos estios,
namorada das marés,
sussurravas-me
ao ouvido
quebrantos
e candomblés
alguma noite
apareceste
no nevoeiro dos filmes
e dormi no teu regaço
sonhando teus seios firmes
mas andaste
pela vida
como rua abandonada,
isto enquanto tropeçavas
nas paixões que desatavas
toda esta sede de ti
é tanta
e tão pujante
que me afoita madrugadas
e me cambia o levante
ai quem dera...
que as noites fossem corais,
que a chuva caísse breve...
que a manhã, enfim, chegasse,
na agonia que descreve
e que todos os poemas
se encerrassem numa nuvem
e que rimas mal paridas
e métricas desacertadas
te trouxessem ao meu leito
a eito…
© Carlos Clara Gomes
e se subitamente o motim?
algures há sempre gente
carecendo afectos
e,
vá-se lá saber porquê,
nunca está ninguém nas cercanias,
desmentindo aforismos
de popular sabedoria
e outras implícitas leis
que regem e condicionam
nossa vida,
nossa escrita,
nosso amar,
tudo...
enfim...
de-sepultamos factos
contra céus e terra ganhos
e escrevemos em vida
os epitáfios de nossas pedras tumulares
navegam assim os amores
uns trocados,
outros aos sabores
de guinadas e sabores
que ventanias e tornados determinam
no grande caos
que constitui a nossa vida
e somos dos amores meras embarcações,
coitados de nós,
pois nossa rota é traçada
por tufões circunvizinhos
e neles nos deixamos ir embora:
reconheçamos alvará aos patrões desta companha
e velejamos,
bolinando...
evitando servir de pasto
a tubarões e piranhas
na marmita,
a bordo,
levamos breves repastos,
tira-gostos...
coisas de fraca mantença
cuidamos enganar fomes
com acepipes tais,
frugais,
espartanos
mas somos paulatinamente vigiados
pelos patrões da companha
e até pelo peixe miudinho
que nos pula borda fora
somos escravos dos medos
que com eles partilhamos
para quando o motim a bordo?
© Carlos Clara Gomes
mar e lua
milhares, milhões até,
de anos atrás,
quando tudo começou,
passaste por aqui,
peregrina,
num tempo
que compreendia a felicidade
e aqui te prestei eterna vassalagem
bojando-me a teus pés,
lua cheia
e tuas unhas dos pés pintadas
brilharam em mim,
eu
— o mar desmedido —
reflectindo-te
e tu,
mulher desejada,
trazias no seio direito
uma neve vascular
quando à tua janela espreitavas,
afagando meu corpo
tudo isto antes de navegantes,
corsários e bucaneiros
me cruzarem rumo a ti...
— antes deles,
muito antes,
outras eras —
e tu,
lua companheira,
vais-te entretendo
fabricando marés,
determinando o cio dos peixes
e os meses das mulheres
e eu,
teu eterno apaixonado,
esgoto-me em preias e baixas-mar,
feiticeira,
iemanjá.
(c) Carlos Clara Gomes
garimpos
volta.
e com tua volta traz sementes,
traz aromas,
frutos,
flores,
pássaros de cores tropicais,
tua saia curta,
a escrava no tornozelo.
devolve-me as primaveras,
o cio, enfim...
traz contigo os postais que ilustrem
por onde andaste
quando empeçaste correndo mundos.
garimpa debaixo da minha cama
os pesadelos que para lá atirei,
aqueles que descartei para reciclagem
e,
depois,
criva-os:
escolhe uma trama apertada
e entrega-me só aqueles que filtraste,
aqueles que se poderão reciclar
em sonho leve
e traz com teu beijo,
na pele de teus lábios a frescura
de uma primavera renascida
enquanto observo teu andar de corça
quando te afastas de mim
até mais logo...
(c) Carlos Clara Gomes
rescaldo
e depois de passadas as intempéries?
para onde foi
a mulher que estava no rochedo
mirando o mar do topo da falésia,
perscrutando a vaga linha
do opaco horizonte,
os braços abertos
mimando a nau partida?
ah,
viajante ou desperado,
cipião ou aníbal,
foste montado
num paquiderme espantadiço
para a raia inimaginada,
ignotos continentes,
arrolado em decrépitas
cantigas de adeuses...
e que é do beijo de despedida?
que é do abraço?
— o pretexto para sentires
seu seio macio
de encontro a teu peito andarilho —
quantos simulacros
te não traz o roçagar do mamilo dela?
não é?
sabes bem
a que me refiro...
lembra-te o faiscar do borralho
quando com ela tiniste tua espada
no corpo-a-corpo que usufruiram;
lembra-te quando por ela
terçaste armas sob o seu estandarte,
ao serviço do seu pendão...
não é?...
e agora?...
partes assim,
na senda de melhores dias?
de melhores vidas?
a tua?
não será essa,
certamente...
pois cada minuto acontecido
quedas-te em brasa,
estranhando-a,
ansiando pela volta da caravela
— só tu e ela —
pernoitas
nos assobiados corredores da vida,
atento a raios fulminantes
que não firam nem açoitem
o teu já fraco e dolorido peito...
porém,
ela,
na outro banda do mundo,
acena a mão,
agitando o lenço
(um adeus?
uma dádiva de tréguas?).
ou será apenas um
“vem cá...
volta...”
que tu,
bacoco,
não entendes
ou aparentas não entender...
será que nunca aprendeste
a ler nas entrelinhas da vida,
nas faias do evidentemente declarado?
sabias que a vida
tem mais coisas exaradas
do que aquelas que nós lá rabiscamos,
do que aquelas que nós,
simplesmente,
lemos?
e lá,
nesse cu-do-mundo
onde assentaste romaria,
vais consultando videntes,
vísceras de aves e de peixes,
orixás e cartomantes...
e os caminhos,
de novo,
se cruzam,
se entrecruzam,
e entrechocam ainda que
em distantes continentes
e sem a magia dos olhos dela,
sem o fragor dos teus silêncios...
e passam um pelo outro,
rés-vés na vida,
de costas voltadas aos sentidos
e numa inenarrável chama,
tentas soerguer-te dos destroços,
dos escombros
em que se encontra a tua alma,
sacudindo a caliça que a cobre...
tentas ressarcir-te,
peça-a-peça,
pedra-a-pedra,
recolhendo
teus pedaços espargidos
pelos mundos
que entrementes calcorreaste
é aí que ela,
mesmo não estando,
te une os fragmentos
com a sua saliva,
a curandeira...
não acaba,
tanto bem-querer não acaba!
não há margens
que o comportem:
seu imenso caudal
não considera diques...
só o peito dela,
só o teu
juntos
conseguem ser
sua albufeira...
(c) Carlos Clara Gomes
na mais fina realidade dos nenúfares
reinventar-te a cada hora,
a cada dia,
na mais fina realidade dos nenúfares
e sentir-te num momento
uma gazela
que flutua nas manhãs
por inventar
saber-te nua de esperanças
e resguardar
meu desejo angustiado
no teu ventre
enquanto ao sol
se descoloram primaveras
por dizer
em palavras desfiadas
em canções
pode ser que a madrugada
venha prenhe
de ilusões e fés inquebrantáveis
e que o segredo
que escondes no teu rosto
se revele no sorriso
por ofertar
amanhã pode ser tarde
para tanto amor
por explicar
hoje pode ser cedo ainda
para tanto amor
inexplicável.
© Carlos Clara Gomes
liberdade
lembras-te?
quando os dias
se contavam
pelos dedos grávidos
duma sabedoria inexplicável?...
nesses entãos
eras sereia
na maré vaza
tão desabitada de outonos
e tão repleta de epifanias
a tua saia cobria,
contrariada,
mil maravilhas
onde eu dormia
eu, ébrio,
tentava ser um menino
em demente descoberta
do esplendor dos malmequeres,
dos bem-quereres,
do tudo e do nada
em ti
sonhei navegar:
meu corpo no teu,
tua alma inundando a minha
de ti
resta a nuvem que te trouxe
numa quinta-feira
dum mês que se supunha
igual ao anterior
nos meus lábios
ficou o teu travo
a mel de urze
a dor e sol,
amor e sal,
a mar e sul
levaram-te daqui
fizeram-te refém
deixando cá
tua mortalha enganadiça
pendurada na porta
por onde outrora entraste,
furiosamente apaixonada.
(c) Carlos Clara Gomes
caderno reivindicativo
quero poder sair à rua!
quero que a rua possa sair à rua!
quero que a rua se vomite nas casas,
nas famílias,
no passepartout da cómoda,
na cozinha,
na sala de jantar,
na cozinha travestida de sala de jantar!...
quero que a rua
seja mais do que uma flor vermelha,
mas que o seja sempre!
quero que a rua me entre portas adentro,
coração adentro,
pulmões adentro
para gritar bem alto:
eu amo a rua!
quero amar a rua!
quero amar na rua!
quero entrelaçar os dedos nos teus dedos.
na rua.
quero amar-te na rua…
quero empunhar um pendão,
um estandarte
– até um qualquer manhoso cartaz de papelão
onde possa escrever com uma qualquer tinta
as palavras que me escorrem da alma,
escorrendo para o chão
e tingindo a calçada!
quero sair à rua!
quero rir-me na rua,
quero rir-me da rua!
quero enfrentar a nudez da rua
no meio duma multidão sôfrega de rua,
ansiando pela posse da rua,
babando-se de desejo,
desejando a rua com todo o tesão
que a rua lhe possa dar,
desejando a rua
com um superlativo tesão!
quero esquecer a casa
por momentos.
quero acreditar por momentos
que não tenho casa,
que não quero ter casa
pois a minha casa é a rua…
quero ignorar o bom-senso,
o senso comum,
a prudência,
o tacto,
o fair play:
quero poder dizer um chorrilho de palavrões,
um rebanho de caralhadas!…
quero não ter paciência!
quero impacientemente desesperar,
que se me tolde o critério,
que me enjoe a paz podre,
que me repugne a calmaria…
quero a tempestade urgente,
insurgente,
quero a borrasca iminente,
quero!…
quero que a rua se inunde,
quero assaltar a vergonha…
quero desesperadamente a rua…
quero um dia acordar e dizer:
que lindo dia para sair para a rua!
quero perder-me na rua,
entrar por quelhas e becos,
machete em punho
roçando o mato da rua,
abrindo veredas…
quero que a voz enrouqueça
no meio de tanto ruído.
quero fazer parte do ruído,
quero ensurdecer os pacatos,
ensandecer os atinados,
irritar os conformados.
quero ser sal no café
e nunca mel no vinagre!
quero exigir o que é meu,
que é tão pouco,
sendo muito!
quero exigir o que é teu,
o que é nosso…
quero conquistar ameias
e muralhas
e barbacãs!
quero a tua força na minha força,
escritos no ventre da terra desnuda…
quero daqui por uns anos
olhar de soslaio o inteligente que,
agora calado e quieto,
dirá imbecil
que estas minhas palavras são demodées,
e me chamará de neo-realista
do alto do seu penteado de turno,
no seu calçado à moda,
anotando banalidades no seu moleskine digital,
entre uma bebida da moda
e um vício da moda
olhando para a rua sem aquilatar da sua sabedoria…
quero insultar os cínicos,
os que não respeitam a rua.
quero!
© Carlos Clara Gomes
e tua pele de mistérios perceber
murmurar tantos rios no teu ventre
e tua pele de mistérios perceber
ser teu arco, tua flecha, teu resguardo
ser um rio e em seus seixos escrever
de tormentas e países ocupados
ser das nuvens um tão breve espectador
em fortalezas e enseadas de corsários
ser grumete, caravela, imediato
ter teu nome tatuado em minhas veias
ser procela, ser levante, ser a nau
onde embarcas para noites sem repouso
onde o sono é ausência desejada
e dizer-te caminhando pela estrada
quais caminhos se caminham sem cajado
e que noites e marés são coisa breve
quando a lua acha graça ao teu riso
e tentar numa manobra melindrosa
perceber toda a vida dos jasmins
e seu cheiro entender sem passaportes
ou candeias que nos guiem na procela
e na praça da cidade tuas nádegas
afagar em gesto arisco e obsceno
e entender a sabedoria dos silêncios
que nas almas construíram anteparo
e as alvoradas que me plantas no regaço
fazer delas documento imorredouro
e ter sede de mudar para outra casa
quando o sol se recusa a ser menino
e colher erva-de-cheiro em teu sorriso
e bandeiras com serpentes desenhadas
de exércitos profanos que despontam
na fímbria da manhã por inventar
e guardar na algibeira este momento
pois o dia já revela suas gárgulas
e a garganta dos poetas e cantores
já se seca sem teu beijo de bons-dias.
© Carlos Clara Gomes
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