sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
cantiga da rua
voa,
ave nocturna,
o sol já se pôs
para lá daquele morro
o último autocarro
já leva as formigas da cidade
néons escrevem
nos céus da noite
frases alusivas:
compre isto,
compre aquilo,
garantem que o seu
é o melhor de todos os produtos
mulheres ainda meninas
deixam-se devassar à porta das pensões
e nas estações dos comboios:
para elas começa outra estação
carros partem,
carros chegam.
quantas almas
os povoam?
quanto amor alugado
pernoita
nos seus estofos?
proxenetas invadem a noite
ostentando brilhantina,
marcas de baton,
cicatrizes de afiadas navalhas...
(ferimentos de guerra...)
haverá em todo este folclore
uma nesga de humanidade,
uma réstia de ética,
um não-sei-quê de amor?
sonhos?
só o pó da estrada
e as noites mal dormidas e,
talvez,
um crucifixo ao pescoço
a trazer panaceias
as certezas?
correr santos pousada
e a rua da alegria
fugindo
à ramona
e à fome
um dia,
verás,
essa rua será tua
© Carlos Clara Gomes
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