sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
a noiva da noite ou retrato de mulher no cais durante
como tens passado?
foste noiva na tempestade
(quanto é difícil ser noiva...
quão fácil é haver tempestades...)
hoje a tempestade amainou
teria mesmo sossegado
ou será mais uma inquieta noite?
ou vives desassossegada
por teu noivo ter partido,
deixando-te no molhe,
noiva para sempre,
amor adiado?
talvez um dia
aporte ao teu umbral.
talvez um dia
a porta chie pesada nos gonzos
e ele entre
com um cheiro de mar na bagagem
e uma flor tropical na lapela
e te inunde a vida
com histórias vividas
e te inquiete o sono nessa noite
afagando o teu adormecido seio esquerdo
e o desperte
tantos anos anos depois
daquela noite
em que ficaste noiva da noite,
noiva na noite,
noiva de um sonho
que com ele viajou,
para trás o cais deserto,
teu esguio vulto acenando adeuses,
o lenço acenando,
o lenço enxugando teu olhar de mar,
perdido no mar,
perdido na vida
para quando?
até quando?
por quanto?
algo paga sua ausência?
algum sonho acalentas
em teu franzino peito.
sonhas com,
quem sabe?
— a vida dá tantas voltas —
um regresso intempestivo,
um furacão que o devolva
ao teu peito incendiado
rezas para que,
por lá,
ele tome inquietações
e volte correndo
a aninhar-se em teu colo,
buscando encontrar quietudes
na macieza da tua sempre pele de menina.
rezas para quê?
porventura achas que ele ainda vem?...
por que não segues os sábios conselhos
que frequentemente te entregam:
procura quem te console...
esquece-o!...
se ele te amasse já teria voltado!...
e assim te vais mortificando,
indecisa...
balançando
entre a evidência
e o letargo
e se ele já te esqueceu?
e se vives a humilhação
de nem sequer chegares
um dia a ser viúva?
mas,
e se,
de repente,
alguém bate à porta
e te levantas,
sôfrega e tropeçante...
e ali está ele...
não,
não é ele...
afinal é apenas
uma carta...
(será dele?
esta vem de longe,
traz um selo de outra cor...)
e se nessa carta
alguém teve o mau gosto
de te libertar do teu compromisso,
de te quebrar a grilheta
que tu própria amarraste ao tornozelo?
sim?
e, se alguém
(certamente num assomo de crueldade...)
resolve escrever-te laconicamente
e, com esse acto,
desvanecendo teus sonhos,
arrefecendo teu coração,
impedindo-te de continuares voando,
voando,
voando...
voando para sempre?
sim...
e se esse alguém
te escreve
lamentavelmente informamos
do passamento de seu noivo,
acrescentando alguns escassos,
sórdidos,
pormenores,
descrevendo o fatal evento
— coisas que as lágrimas
já te não deixam ler —
coroados pateticamente por
sentidas condolências?
ou então
— pior ainda –
se é ele mesmo quem te escreve
pelo seu próprio punho
— ai!…
tu reconheces a grafia…—
informando que lastima,
mas está apenas a cumprir
um português porvir
que não só o predestinou à diáspora
como também lhe reserva
um radioso futuro
na elaboração da tropical mestiçagem?...
sim,
e se ele resolve escrever-te
comunicando que casará
para o mês que vem...
o que,
atendendo à data da carta,
significa que a boda
já se consumou
há mais de um mês
(outros tempos virão
em que as notícias
se saberão de pronto,
lestas
e funéreas)?
e assim te vais entregando
a um sonho,
paulatina
e desenfreadamente,
não obstante a raposa
te rondar o redil
(ah...
como as tentações da carne
são fortes...)
e cruzas as pernas em desatino,
o cabelo em desalinho
e a alma sabe-se lá em que estado...
ou então, se um final feliz ocorrer
— o que é raro nestas histórias,
fica o aviso —
e ele (sim, ele ... )
te chegar pelo alvorecer,
no primeiro benfazejo raio do dia,
sussurrando amo-te ao teu ouvido,
beijando-te até à alma...
dançando contigo
uma valsa fora de moda?
então voarás,
serás leve,
baterás tuas asitas de mariposa
e concluirás que dormiste um sono
de muitos anos
e que já não és mais noiva da noite
e que o dia já nasceu
e dir-lhe-ás
esta noite tive um pesadelo horrível,
nem vais acreditar...
mas ele,
porém,
acreditará.
© Carlos Clara Gomes
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