sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
desencontro
vens devagarinho
enquanto durmo,
pé-ante-pé,
dia-a-dia,
noite e dia,
e entras no meu sono,
penetras no meu corpo,
dilaceras minha carne,
esventras a madrugada,
varando-a,
até que uma providencial alvorada
me acorde em sobressalto
estremunhado desperto,
mal desperto,
mal dormido:
novo dia bate à porta,
nova rota a tomar,
vela afoita,
rumo à noite,
fugaz por bela
e bela por doce
doce noite,
minha noite…
e, no entanto,
empreendo torvelinhos
de golpes de estado
e tomo o poder
no sussurro de urbanas guerrilhas...
(mas que massagada vai cá por dentro!
nunca imaginei que tanta certeza
causasse tanta confusão...
e que certezas me assaltam!)
autênticos golpes de estado,
vários profundos golpes me desferes
trazendo-me neste estado...
e carregas teu olhar
de corça ferida
e teu andar de gazela,
teus ademanes de puma
espreitando a presa incauta,
arremessando voodoos,
feitiços vários, despachos,
macumbas e outros
correlativos ofícios,
pois tarimbada que foste
na prática de candomblés
em vários terreiros dos livros
do amado jorge amado
assim sendo e posto isto,
és mãe-de-santo,
mãe-de-água,
sucuri,
cobra-norato:
trucidas meu corpo exangue,
asfixias a minha alma,
o beijo da morte cheirando
a um dedo das minhas narinas
que se alargam na vertigem
do feitiço esperado,
no bulício desejado
do cio desesperado,
nalguma espera de caça
em que eu sou o caçado
e, num frémito,
em desassossego,
perpassam no meu espírito
actos estranhos,
coisas lascivas
e vais abusando de mim,
rindo de alheias misérias,
da minha entrega,
da minha dor,
do meu torpor
usas-me, meu amor
e usas o meu amor
fazendo-me teu cavalo,
teu tapete,
teu regalo,
que topete!
em vão tento disfarçar:
vou dando parte de fraco
quando tento armar em forte.
e quando,
enfim, me arquivas
num canto, na prateleira,
abraço o travesseiro,
faço de conta que és tu...
e espero benevolente,
paciente e calmamente,
as chaves abrindo a porta
nesse então só tu importas...
tudo o resto se esvanece
nalgum copo de sangria,
no esfumar dum cigarro
fazes argolas com o fumo
e eu aproveito o ensejo
para te roubar um beijo
misturando nossas línguas,
confundindo-as,
fundindo-as
(seremos então um só?...)
quando tal nos acontece,
eu olho de cá de dentro
e tento parar o tempo
em manobra arrojada
perscruto todo o teu corpo,
tua gruta,
teu pescoço,
teus seios,
os tornozelos,
tento prender-te a mim
em vão amarro teu pé
ao pé da cama revolta.
lá sofro o desconcerto
de eu próprio alargar o laço
fica lasso o meu abraço:
foges-me por entre os dedos,
arisca truta marisca...
senhora do teu nariz,
és caçadora e perdiz,
deusa da caça, diana,
és cordeiro, agnus dei
então,
num pagão ritual
ofereces-te em sacrifício
à minha espada guerreira
tiro o ferro da bainha
e consumo a imolação:
ali,
deposta no altar,
sobre a pedra tumular,
és ofertada aos deuses
e eu sou o instrumento
da tua execução...
mal ficas purificada
vestes-te,
vais para casa
e eu fico
mais uma vez
com a alma empedernida,
enxugando o lençol,
esboçando a tentativa
de lavar da minha alma
tanta noite mal dormida
empreendo escrever textos
de rima algo forçada,
tento pôr a escrita em verso
então, por vezes,
incauto,
dou comigo a cantar
um qualquer tango perverso
dou uma de marialva
procurando alguns regaços
em bordel mal afamado:
alugo por meia hora
uns minutos de carinho
e uma noiva transitória.
assim vou gastando os dias
no afã de tua visita,
aguardando teu regresso…
porém,
breve e rotineira,
vais directa ao assunto
sem amanheceres comigo...
pois,
cumprida a missão,
no duche tomado à pressa,
tiras-me da tua pele,
não vá o último metro
partir para o seu destino
sem te levar dentro dele.
© Carlos Clara Gomes
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