sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

produtos voláteis


carrego comigo
matérias inflamáveis,
tento evitar uma centelha,
uma faísca,
uma chama,
fogos-fátuos até

e vou acarretando
fluidos combustíveis
de pés nus
sobre o frio fio da navalha

percorro
áridos territórios,
ilhas desertas,
desertos gelados,
estepes e sertões,
tundras e savanas

escondo-me das feras,
acoito-me das criaturas perigosa,
não me afoito
no sol cáustico
nem nas nuvens da trovoada,
nem me exponho
a relâmpagos
ou a auroras boreais

percebe-se facilmente
como sou vulnerável às chamas,
como facilmente deflagro

trago comigo
matérias inflamáveis:
paixões e revoluções
pretendo mudar o mundo,
mudar-me a mim mesmo,
protagonizar uma esperada
— desejada? —
explosão


há vários focos hibernando
(não façam lume,
pode tudo isto rebentar!...)

como evitar um cataclismo,
um holocausto,
um conflito global?

como evitar um sinistro?
um sinistro incêndio benévolo?

não façam fogo!
se alguma faísca ocorrer
isto ainda se incendeia!...

não façam nada
que me faça detonar,
algo que ligue a ignição...

trago comigo
matérias inflamáveis,
materiais de perigoso manuseamento!...

percorro auto-estradas,
quelhas,
ruas
e outras vias

ando célere
pela cidade adormecida
sob o efeito de um forte sedativo

corro o risco
de adormecer ao volante,
corro o risco
de embater contra
um poste,
um amor,
uma esperança
— um qualquer casual acaso
que deflagre
todo este conteúdo
(basta uma faisquita,
um fósforo,
um pirilampo,
um luzicu...) —

serei eu um kamikaze,
um piloto suicida
a bordo de lesta nave,
ao leme dum funesto camião,
dum petroleiro à deriva?

não!...
visto um fato-macaco,
fato-de-vôo,
tecido em amianto
e tenho as agulhetas assestadas
a qualquer eventual
e inoportuno foco de incêndio

detecto colunas de fumo
e optimizo rescaldos,
tentando sempre
manter-me afastado
de fagulhas perigosas,
de brasas e de piriscas,
do sol a pino ao meio-dia,
até das noites de lua-cheia
— não vá o diabo tecê-las! —

trago produtos perigosos,
matérias inflamáveis
(facilmente inflamáveis...)

não desfruto estacionamento
nem posso abrandar meu passo...
passo a todo o momento
por várias formas de estar,
várias vidas mal amadas,
vários sonhos entretanto
desfeitos por essas vidas...

carrego comigo
vários produtos inflamáveis,
não sei ao certo para onde,
não sei ao certo para quê.

apenas com uma certeza:
busco incendiar o mundo,
transformá-lo num braseiro...
sou pirómano
psicopata
terrorista
franco-atirador
caçador furtivo
cão-de-fila
quinta-coluna
revolução!

e,
assim,
vou mordendo pela calada,
pela calada da noite,
pela noite calada,
pelas caleiras das casas,
pelas casas das pessoas,
pelas barracas,
pelas tendas de campismo,
pelas tendas de campanha...

ardo em fogueiras de campo
— atenção!
não façam fogo! —
transporto fluidos combustíveis,
fluidos viscosos,
bons para queimar,
queimaduras de último grau,
degraus,
esconsos,
sótãos e águas-furtadas,
gárgulas,
ameias e barbacãs,
cãs,
cabelo grisalho,
calvícies...

trago comigo
vários inflamáveis líquidos,
sólidos princípios voláteis
(como são volúveis, os princípios,
quando nos fardamos de adultos,
quando vestimos a irresponsabilidade
de sermos responsável gente
que mente,
que oculta,
que no oculto da mente
sonha com deflagrações,
com o ímpeto duma explosão,
com o impulso de dançar agarrado
na praça central da cidade,
com a semente da revolta,
com o germe da insurreição...)

e,
assim,
vamos erguendo guindastes,
gruas
e outros mecanismos,
engendrando articulações diversas,
enlaces,
nexos,
concatenações...
e até,
contraditoriamente,
rupturas e desenlaces,
sempre que nas nossas vidas,
nas nossas mortes em vida,
trilhamos obscuras rotas,
sombrios becos,
como um sonho lindo
alvorecido pelo piar da coruja,
pelo noitibó,
pelo mocho

e quando somos assaltados
por um frémito,
um frenesim que castramos
(nós próprios!)

trago comigo
produtos inflamáveis,
secretas revoluções...

dás-me lume?

© Carlos Clara Gomes

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