sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

eternamente efémero


eu não queria parecer-te tão lamechas
que chorasse pelos cantos desta casa
eu não queria rastejar pelo soalho
e a teus pés declarar-me teu escravo


eu só queria no espelho teu reflexo
e teu sexo nesta cama por fazer
e varar com miradas tua alma
devassando teus tugúrios e teu mel

eu não queria ter-te deusa num altar
mas mulher na calçada pedonal
eu não queria namorar-te ao portão
num fim-de-tarde sem promessa duma noite

eu só queria ter-te nua na minha alma
enquanto a rua se adorna para o natal
e saber teus segredos mais perversos
e que sejas tu quem mos vais contar

eu não queria ter em ti um breve flirt
nem deixar de me embriagar com teu olhar
nem queria que trocasses o teu lar
por promessas de amor por fabricar

eu só queria que estivesses a meu lado
e tua orelha levemente mordiscar
num rompante duma tarde preguiçosa
em que o tempo a passar demoraria

sabe pois que eu não sou o cavaleiro
nem o príncipe das histórias infantis
sou apenas quem quer ser o teu amante
em deleite de manhãs primaveris

eu queria ter-te ali sempre a meu lado
nem que seja num momento bem fugaz
sem saber se algum dia voltarás
mas sentir sempre o teu cheiro em meu nariz

eu não queria, em resumo, a promessa
que não seja a de amar-te ao luar
nem queria ter anel de compromisso
ou escrever fantasias num papel

imaturo, quero ser. na realidade
sem desejos de amanhãs por construir
mas desfrutar os teus olhos de amêndoa
num cenário duma praia tropical.

© Carlos Clara Gomes

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