sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
che
toquem sikuris
dancem os povos do mundo
hoje faz anos que morreu um homem livre
quando te conheci usavas aquela boina basca,
a estrela rutilando,
farol orientando-me na noite que cessaria
um ano depois do nosso encontro
conheci-te nas palavras
do cantor que empeçava
sua trova por
aprendimos a quererte
e, ali, entre as semicolcheias da guitarra,
o andar gingão dum caribe do teu plata,
as semicolcheias correndo lépidas
numa estrada que se assemelhava
à minha ibéria,
um frémito,
um arrepio,
invadiu-me então a medula,
as lágrimas compareceram
(ainda hoje assomam,
o que prejudica a afinação da voz)
pois, em toda aquela trova,
se relatava com um rigor enciclopédico,
com a virtuosidade dum fotógrafo de guerra,
o que tu foras,
o que tu és,
o que serás sempre...
e para mim foste o tal farol,
o exemplo,
o modelo,
o cliché.
alguém te chamou depois
de cristo guerrilheiro
(o que me deixou despeitado
e invejoso
pois gostaria de ter sido eu
o autor dessa expressão).
e nas picadas da serra boliviana
eu sigo tuas pegadas indeléveis,
intento incorporar tua tropa,
teu comando
ficaste como símbolo do sonho,
profeta de utopias,
partizan do mundo novo:
no teu rosto vejo os rostos de outros,
vejo os de joana d’arc,
steve biko,
zé do telhado,
maria da fonte
nos teus olhos de poeta
vejo-te mirar um admirável homem novo,
aquele que fabricaste com tua postura
de ti ficou-me o desapego pelo poder,
quedou-se-me a paixão da revolução
em dinâmicas de mares revoltos.
em ti encerras a virtude
do melhor homem livre:
aquele que liberta os outros...
és um depósito de centelhas
e fogueiras de campo,
fazes arder a chama da generosidade,
ainda que te queiram reduzir
ao poster
e à t-shirt
e enquanto carlos puebla
canta tua saga de viking generoso,
marinheiro das serranias de nuhancazú,
prossegues guiando minha conduta
(por que não seres o meu guru,
que mal há nisso?)
toquem sikuris
tambores legueros
dancem os povos do mundo
hoje faz anos que morreu um homem livre
e a traição?
quem te traiu sabia-te assim tão livre?
conheceria tua galharda estatura?
quantos trinta dinheiros
foram desembolsados pela delação?
(quanto valeste tu nessa venda,
em suma?)
e alguém se dependurou
depois
na figueira
como o fez o iscariotes?
nem sequer houve remorso?...
porém,
de que adiantou trair-te,
se o insidioso já gastou o dinheiro ganho,
enquanto tua memória persiste,
tua estrela cintilando na boina basca...
e quantos te perseguem ainda hoje?
quantas tocaias ainda hoje te são armadas?
quantos de teus prosélitos cedem ao medo,
à falta de força para sonhar?...
toquem sikuris
tambores legueros
cáscaras
dancem os povos do mundo
hoje faz anos que morreu um homem livre
mas que aventura, comandante!...
valeu a pena?
(parafraseando o outro,
não te conheceu,
passaste-lhe ao lado...)
valeu a pena morrer
alçando as paredes
de uma pátria dos humildes?
pergunto eu...
claro que valeu,
respondo eu...
vale sempre tudo
quando se persegue um sonho
quando, como tu,
se tem o olhar sonhador
de um poeta em armas,
quando,
como tu,
se tem a tenacidade
que inunda as almas dos profetas!
toquem sikuris
tambores legueros
cáscaras
dancem os povos do mundo
dancem milongas e bulerias
cantem rancheras e charreadas
hoje faz anos que morreu um homem livre
hoje faz anos que todos nascemos livres!...
© Carlos Clara Gomes
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