sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
e o remorso?
enganei-me
por pensar que tinhas
deixado teu remorso
sobre a cómoda
junto com as chaves
da casa
que não mais quiseste tua
mas não,
apenas saíste de mim
sem mais
e eu precisava
perceber,
saber,
entender,
se cada passo teu
rumaria a um ponto
em que darias
meia-volta
mas não,
apenas saíste de nós
desatando nós
que já não há
do que resta,
pouco há para contar
a não ser
as feridas
que julguei
que não teria
até sempre,
nem sei se foi bom:
o gato
vai ter saudades,
o bidé
nunca mais será o mesmo
e eu?
armo-me no herói
que sempre quis ser
e afundo
o rosto na almofada
desejando
não sei bem o quê
soltando prantos
sem que ninguém me veja
na noite calada
vou afogar as mágoas
no vinho que nos deram
no nosso aniversário
mas, horror:
a garrafa já está vazia.
(c) Carlos Clara Gomes
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