sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

primaveras esparsas


dias passados em atalaia,
noites de velório,
guaritas
— ou, simplesmente,
mal dormidas —

na manhã,
os olhos esboroados
trazem na poeira da memória:
a espuma da noite,
soltas ideias que ventos agitam,
desprendendo-se de exóticos sonhos.

e intento alçar-me na cama,
levantar-me da sala de observações
onde toda a noite estive estendido
aguardando tua inspecção,
tua minúcia,
meus detalhes,
fadado que sou
a tal sorte de investigações

e percorro a cidade devoluta,
um sol sustenido ouve-se,
um cão uivando,
a sirene da fábrica
empreendendo alertas,
chamamentos,
sopram cíclicos outonos avulsos,
rorejantes,
plácidos.

trago as faces vermelhuscas:
uma soturna insatisfação
invade meus nervos.

perigosamente acerco-me
de reclames de coca-cola,
gentes sem rosto cilham-me,
às pessoas em geral me sonego,
não me declaro
em manifesto dos viventes:
sou um número, apenas
— o zero, periférico,
preferiria!...
o neutro, pode ser!...
até mesmo um negativo,
nunca, porém,
uma fracção,
incompleta,
vírgula qualquer coisa —

desvio-me de candeeiros,
polícias,
semáforos
e cagalhões

quem dera se ouvisse
o zeca cantando!...
quem dera...

no entanto,
imagino-o por cá
semeando ora concórdias
ora desacatos a toda a hora e momento:
consensos e revoluções,
aliterando compêndios,
cerceando compassos,
plantando notas,
palavras,
poemas,
ideias,
amores
— corações ao alto! —,
trazendo áfricas
para os nossos regaços...

mas a cidade
avança lesta para mim
(ou sou que me desloco
no seu seio?),

a cidade brilha
em fluxos e refluxos,
em repuxos de fontes luminosas,
águas possíveis para quem tanto mar deseja,
tanta vaga,
tanta onda
e tanto mar outra vez,
pois nunca é demais lembrá-lo.

e atracam no meu peito os navios,
paquidermes de ferro...
nos meus sonhos rodopiam
barcos de papel,
embarcações afoitas,
naufrágios
e trombas-d’água.

uma ou outra sereia
perturba meus ouvidos,
plantando sobre um recife,
um escolho,
uma jangada,
o cu que não tem...

serei eu um grumete,
marujo,
nautaquim?
ou,
simplesmente,
aquele finório que sonhou ser mareante?

não vem ao caso
pois já me acotovelam
na berma do passeio:
um claxon desperta-me,
uma puta sorri-me,
um polícia olha-me de soslaio.

fujo aos três
rumo à outra margem,
pisando a zebra,
esperando o verde.

uma vez lá,
fujo para o longe,
para o imenso,
onde não seja agredido
pelo reclame da sony,
onde a coca-cola
me não persiga,
onde este outono passe célere
e o seu inevitável inverno também,
onde a primavera se instale
e eu a aferrolhe numa gaiola,
só minha,
só para mim
—...para ti também,
talvez...
para todos,
enfim...
por que raio
quereria eu a primavera
se não a pudesse partilhar contigo?
e por que raio
a quereria só contigo
se não a pudesse
anunciar aos outros?—

ai quem dera
eu soubesse as primaveras gerir,
quem dera
eu pudesse seus caprichos entender...

© Carlos Clara Gomes

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