sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
amigos amigos
sete afiadas espadas pendem sobre mim
sete sonhos alquebrados?
sete múmias exumadas?
sete?
sempre sete?
e eis o que poderia ter começado por ser
um épico poema de cabalístico assunto...
mas não...
é apenas um escrito feito no ar
em papel reciclado
com tinta de esferográfica.
azul,
daquelas bic.
exposto este breve e pouco poético intróito,
em nada lírico, convenhamos,
sou forçado a escrever algo que jeito tenha
pois não se caçoa impunemente com quem lê...
se fosse assim, um dia destes,
passando na rua, transeuntemente,
seria abalroado por alguém amigo que,
ao invés de, hipocritamente, fazer inchar meu ego,
tudo me diria que não piropos,
adjectivando-me amiúde
e brandindo na mão esquerda
argumentações relacionadas
com assuntos de coerência estética e ética.
mas isso, há sempre quem o faça...
há sempre quem diga tal
— mas é duro quando é um amigo a dizer-nos... —
já repararam o quão cretino é o amigo?
já repararam que é o ser mais duro,
sinuoso e rebarbativo que existe?
chato, até?...
fazemos uma qualquer honesta asneirola
e zás! lá aparece ele,
vindo não se sabe de onde,
como um lacrau, debaixo duma pedra,
afiando o arpão para nos zurzir uma estocada!
— dizem que os lacraus também sofrem quando picam... —
julgam, pois, que ele aprova o nosso erro?
ou que diz: deixa lá isso?
não!...
chama-nos avulsos nomes descortezes,
mira-nos do alto da burra
e azóina nossos ouvidos
com fervor de funcionário de alfândega...
inspira-nos a vontade
de não repetirmos a graça
por melhor que nos tenha sabido...
e, como são inconvenientes, os amigos!...
entram na nossa vida
com todo o à-vontade,
de quem pergunta "é aqui que se mija?"...
instalam-se no nosso peito
sem pagar qualquer renda.
por vezes
chegam a subalugar o apartamento
a outros deles amigos,
acrescentando mais almas à nossa
e depois
diz-se que o saber
não ocupa lugar...
mas qual quê?!...
quantos se lembram ainda
da primeira palavra aprendida?
não é, pois, verdade,
não senhor...
o saber ocupa mesmo lugar...
quem não ocupa lugar é o amigo...
às vezes quedamo-nos sem saber
qual o paradeiro de um ou dois deles...
raras vezes os vemos...
— por vezes lá nos encontramos
trilhando opostos sentidos
à porta dum café,
fora de ambas as habituais rotas —
no entanto, são piores que as traças...
sempre que não são solicitados
eles aparecem.
a maior parte das vezes
sem mesmo serem desejados
— e quanto são indesejados
quando com eles trazem na bagagem pessoal,
no bolso do colete,
no baú do porão,
verdades que nos custam ouvir,
que nós já sabíamos que iam custar a ouvir...
e por isso os evitamos...
e por isso mesmo as evitamos,
as verdades...
contudo,
apesar de não os vermos amiúde,
eles vivem no nosso sótão,
no nosso quintal,
alguns no nosso frigorífico,
habitam os nossos sonhos e pesadelos,
guardam sempre a chave do nosso coração
debaixo do tapete de entrada...
mas se não lhes podemos tocar
ou se não os conseguimos ouvir,
sabemos que eles estão por aí...
existem…
estão apenas fora do nosso horizonte,
como o sol quando se vai
depois de nos dar o dia de presente,
depois de nos dar uma alegria desinteressada
e se esconde por detrás
duma nuvem ameaçadora de chuva
ou cedendo lugar à lua,
essa puta que nos consome...
e, tal como com o sol,
nos cauterizamos bastante
quando aos amigos nos expomos
embora não possamos passar sem eles...
e assim como o beija-flor,
atraído pela serpente,
também nós
somos atraídos pelos amigos,
que nos engolem,
nos mastigam
e nos devoram...
e como é gostoso
ser assim devorado.
© Carlos Clara Gomes
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