sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
canção para utopiar
e assim vou andando,
pisando o meio-fio,
ocasionalmente calcando lambris,
indiferente às viaturas transeuntes
que me circunvagam
e eu prossigo, transeuntemente,
indiferente às mesmas,
ao seu colectivo transe,
à sua demanda,
ao seu fogo-fátuo...
tão fátuo,
tão factual fogo,
tão feito de circunstâncias
e à medida das mesmas
por alguma inexplicável dislexia
emito trocadilhos,
trava-línguas,
que adquirem obscenas formas
— forneço assim
uns quantos neologismos
aos anais do palavrão —
e ocorre-me
(vejam lá!...)
que a asneirola
é também uma forma de arte!...
(invento coisas dessas
para dourar a pílula,
para que não seja tão penoso
a quem faz de meu interlocutor...)
daí que,
amarrado a uma plácida existência,
pálida e lassa,
arquitecto utopias,
castelos de cartas,
cartas-fora-do-baralho,
baralhando ideias...
e dou comigo enmimesmado,
mimando meus mais minúsculos gestos...
tentando, num audaz golpe de rins,
reinventar-me,
renascer,
renascer-me
esperando apenas que novo parto
traga uma personagem algo útil,
— algo fútil,
também... —
algo que abrande
este meu afã missionário,
esta minha indomável vontade
de amar o mundo...
de o sentir vivo e respirante
na ponta da minha língua,
de sentir virtudes nos seus pecadilhos...
de sentir suas veias latejando
descompassadamente,
como se fosse um puto
em pausa de correria da apanhada...
eu queria ser esse...
esse ser que eu teria que inventar...
que refazer...
como refazer tal ser?
e de quantas tentativas disporia eu?
ah...
quanto eu gostaria de esse condão ter...
de ter tal varinha de condão...
(c) Carlos Clara Gomes
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