sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
rescaldo
e depois de passadas as intempéries?
para onde foi
a mulher que estava no rochedo
mirando o mar do topo da falésia,
perscrutando a vaga linha
do opaco horizonte,
os braços abertos
mimando a nau partida?
ah,
viajante ou desperado,
cipião ou aníbal,
foste montado
num paquiderme espantadiço
para a raia inimaginada,
ignotos continentes,
arrolado em decrépitas
cantigas de adeuses...
e que é do beijo de despedida?
que é do abraço?
— o pretexto para sentires
seu seio macio
de encontro a teu peito andarilho —
quantos simulacros
te não traz o roçagar do mamilo dela?
não é?
sabes bem
a que me refiro...
lembra-te o faiscar do borralho
quando com ela tiniste tua espada
no corpo-a-corpo que usufruiram;
lembra-te quando por ela
terçaste armas sob o seu estandarte,
ao serviço do seu pendão...
não é?...
e agora?...
partes assim,
na senda de melhores dias?
de melhores vidas?
a tua?
não será essa,
certamente...
pois cada minuto acontecido
quedas-te em brasa,
estranhando-a,
ansiando pela volta da caravela
— só tu e ela —
pernoitas
nos assobiados corredores da vida,
atento a raios fulminantes
que não firam nem açoitem
o teu já fraco e dolorido peito...
porém,
ela,
na outro banda do mundo,
acena a mão,
agitando o lenço
(um adeus?
uma dádiva de tréguas?).
ou será apenas um
“vem cá...
volta...”
que tu,
bacoco,
não entendes
ou aparentas não entender...
será que nunca aprendeste
a ler nas entrelinhas da vida,
nas faias do evidentemente declarado?
sabias que a vida
tem mais coisas exaradas
do que aquelas que nós lá rabiscamos,
do que aquelas que nós,
simplesmente,
lemos?
e lá,
nesse cu-do-mundo
onde assentaste romaria,
vais consultando videntes,
vísceras de aves e de peixes,
orixás e cartomantes...
e os caminhos,
de novo,
se cruzam,
se entrecruzam,
e entrechocam ainda que
em distantes continentes
e sem a magia dos olhos dela,
sem o fragor dos teus silêncios...
e passam um pelo outro,
rés-vés na vida,
de costas voltadas aos sentidos
e numa inenarrável chama,
tentas soerguer-te dos destroços,
dos escombros
em que se encontra a tua alma,
sacudindo a caliça que a cobre...
tentas ressarcir-te,
peça-a-peça,
pedra-a-pedra,
recolhendo
teus pedaços espargidos
pelos mundos
que entrementes calcorreaste
é aí que ela,
mesmo não estando,
te une os fragmentos
com a sua saliva,
a curandeira...
não acaba,
tanto bem-querer não acaba!
não há margens
que o comportem:
seu imenso caudal
não considera diques...
só o peito dela,
só o teu
juntos
conseguem ser
sua albufeira...
(c) Carlos Clara Gomes
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