sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
faz-me um poema, diz ela
“faz-me um poema”,
diz ela…
como se fosse assim:
estalar os dedos e, zás!…
apareceria o texto
com todo o seu cortejo de sub-textos,
recôncavos e escaninhos
onde se guardam ideias escondidas
em palavras
de dúbio sentido
e falso brilho…
diz ela:
“faz-me um poema...”
e eu,
impaciente,
rabisco e risco
projectos de alinhamentos de frases,
de palavras aparentemente organizadas
(caoticamente,
aleatoriamente)
como se a puta da musa
pousasse na minha mão
e me guiasse a pena
mas isso já não é poesia:
é espiritismo,
telecinese,
psicocinese
e outras ocultas ciências
(como o amor,
aliás)
e haverá ciência mais oculta
que o amor?
esse estado estúpido e palerma
que nos transfigura em imbecis risonhos
— mas estado tão gostoso,
porém,
estado de sítio
por assim dizer —
em que ficamos
imbecilmente cercados,
aguardando o esgotar
dos últimos víveres
e, entretanto,
algo mais se desenrola
nas paredes inexpugnáveis da fortaleza:
exércitos de besteiros
e tropas com alabardas
assaltam os portões
arremessando frechadas em fogo,
os chuços ardendo
paulatinamente,
usando de metodologias várias,
aprendidas em tácticas
e estratégias avulsas,
logram tomar de assalto
o nosso castelo,
desguarnecendo assim
a nossa linha de defesa
e,
mal afrouxamos nossa vigilância,
um dos sitiantes invade os portais
ou salta as muralhas
que julgávamos bem guardadas
ocorrem-nos então
inúmeros violentos actos de retaliação:
intentamos uma surtida
pelas linha inimigas, até
mas a exaustão
a que fomos submetidos pelo cerco
não nos permite grandes vitórias
e sucumbimos
pois estamos muito debilitados
e assim somos feitos prisioneiros,
escravos
e, contudo,
ela insiste
que eu devo fazer-lhe um poema.
© Carlos Clara Gomes
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