sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
observações feitas a partir duma construção lacustre
há no vento, há no fogo,
qualquer coisa minha, tua...
no ventre dos elementos
viajam as dores de parto de outrém
(para que porto?)
e detenho-me no tempo
ensaiando maremotos,
dilúvios,
alvoroços.
cada água-furtada é um tugúrio,
um asilo,
um refúgio...
cada telha é um esconderijo...
e um enorme terramoto
— cujo epicentro
foi detectado
no vão da tua escada —
ameaça a estabilidade
(já débil)
da minha construção lacustre
da minha palafita observo-te,
analiso-te lá longe,
onde usas pernoitar
— aqui tão perto,
aliás... —
e o carril da água na caleira,
esfuracando a tranquilidade da noite?
e o sol sorrindo amistosamente
pela furibunda manhã,
despertando os humores,
acirrando os amores?
e quando?
quando,
quando?
mas passam manhãs a eito,
a fio,
sem vir o sol.
e o que me chega é frio
sem o seu sorriso
a despontar à esquina...
és prometida,
protelada,
de soturnos ciclones.
e os tais ventos em epígrafe
descarregam
e (ocasionalmente) convocam:
cargas de água,
cachoeiras,
catadupas,
pingos de chuva,
neves...
e, tisnados pela lâmina dos frios,
nossos rostos ficam cortados,
gretados,
— fissuras abertas na pele —
pois estamos nus na pradaria,
gélido ermo...
aninhemo-nos,
pois,
um no outro,
mansamente...
ofereçamos nossos ombros
com reciprocidade
quero chorar no teu ombro,
sabias?...
(c) Carlos Clara Gomes
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