sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

pandora


não resististe
e abriste a caixa
de presto
se soltaram os elementos:
os demónios e os ventos
que nela estavam contidos,
que nela viviam albergados

e inundaram
as vidas das pessoas,
assaltaram
as lojas de conveniência
e,
aparentemente saciados,
estenderam-se brevemente
junto ao portão da minha casa
arrotando fogo e enxofre,
cuspindo labaredas
e tecendo basalto

não resististe,
foi mais forte do que tu...

ainda se, ao menos,
a recato observasses
o desenrolar dos eventos

mas aquela sua calma
não é senão aparente e breve

em breve,
recompostos da ressaca,
rumarão a outros desassisos,
tocarão fogos
e brotará o sangue
das almas incautas
e pernoitarão negregados
sob o tapete da porta principal,
nas flores ornamentais,
no armário embutido.
e ali ficarão
a atormentar-nos o sono,
a confundirem-nos os sonhos,
a gerarem-nos
calafrios e pesadelos,
fazendo com que
nos levantemos de noite
para com eles conversarmos.

e, quando a manhã chega,
nós,
de olhos enevoados
e cãimbras na alma,
partimos para mais um dia,
bebido o primeiro café,
fumado o primeiro cigarro
(com ele ardemos
e em suas golilhas de fumo
nos penduramos)

e, deste jeito,
eles nos vão consumindo,
de guarita a uma propícia ocasião,
urdindo ciladas e embustes,
esparrelas e costilos,
sendo nós os imprevidentes pardalitos

mas ocorre
que é gostoso
assim andar consumido
e que,
sem tais demónios à solta
não exercitaríamos nossos músculos,
não bateriam os corações,
não seria nunca igual,
de tal forma nos trazemos
enredados nesta trama

e sem compaixão de nós mesmos,
sofremos gostosamente
os padecimentos de uma fortuita irrealidade
durante os espasmos
duma sólida certeza

e andamos por aí
feitos tolinhos,
mendigando a nós próprios
amor-próprio e juízo
(armas indefectíveis
e indetectáveis pelos radares)

mano a mano
pegamos o bicho em pontas,
esta faena não é propícia
a emboladuras
e julgamo-nos por bitolas volúveis
que construímos e actualizamos
dia-a-dia.

certa mesmo,
só a morte,
etapa lógica
e inexorável da vida,
madastra vida,
doce vida,
destino e fado,
quem sabe?...

e, contudo,
os pássaros arrulham
todas as manhãs
saudando o dia,
saudando a vida,
não obstante o caçador
ter colocado trapaças.

e apesar de terem escapado lestos
à armadilha da véspera,
ao raspão do tiro assobiando nas suas penas,
voltam a entoar chilreios
mal a madrugada se dissipa,
negligenciando a atalaia,
ébrios de vida
e embriagados de desejo

© Carlos Clara Gomes

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