sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

um dia sonhei que estava numa ilha tropical com sol, papagaios, água de coco e corsários à mistura


dorme...

viaja dentro de ti

não tropeces em ti mesma

traz contigo
conchinhas e estrelas-do-mar
de onde vieres

por onde passares,
oferece-as
aos que amas verdadeiramente

por onde jornadeares
garatuja postais ilustrados,
cata os marcos de correio mais rentes a ti,
pelo carimbo verei
quando os enviaste,
de onde os expediste

embosca-te numa baiúca,
esquadrinha em ti mesma essa vigia,
no mais ignoto trecho da tua têmpera

de certeza que existe em ti
um local semelhante,
como aqueles arquipélagos
em que os corsários usavam
engolfar seu esbulho...
todos nós temos, assim,
desses refúgios.

resguarda-te na noite,
no sono sucinto,
no abonançado pio do pássaro,
em palheiros de viandantes e catolés,
de romeiros atolambado

dormita na primeira nuvem
que se postar do lado direito do teu coração,
enquanto a multidão vagueia na sombra da mesma

segue a estrela do boieiro,
a estrada de santiago,
a ursa maior...
em cada uma delas descobre-te,
revela-te,
rebela-te,
solta-te,
abre o cárcere,
inunda-te de alacridade,
solta os escravos agrilhoados,
desanda com eles

faz de cada dia vivido uma ametista,
uma esmeralda,
ainda que seja uma guernica,
ainda que seja um inferno de dante

afunda tuas mãos na tua alma
acaricia a tua alma
sente-a
afaga-a
excita-a
masturba-a
vem-te!...

ergue-te depois,
nua,
grávida de prazer,
ávida de mais

talvez te custe lograr essa ilha,
talvez embarques em galeões sem rota,
sem bússola,
sem mastro de mezena,
sem bujarrona,
sem leme,
sem comandante...

nesse caso,
desata um escaler
e faz-te à água

tenta avistar os picos nevados da ilha,
onde o fogo de santelmo te possa orientar
rema
rema
rema
rema

recosta-te no batelão
quando tuas forças não comparecerem
ao toque do clarim na parada

dorme então e depois rema,
rema mais,
rema sempre

até que chegarás à ilha,
à terra prometida por ti a ti mesma:

e pisarás terra firme
na fímbria da praia adormecida,
nas pregas da noite,
na camilha da alvorada

e o canto de aves tropicais
lembrar-te-á bucaneiros,
piratas,
pechelingues,
pechisbeques,
peças de tafetá,
chita barata,
tinir de sabres,
rugir de feras

e caminharás pela orla da ilha
recenseando pressupostos abrigos
(olha as feras e os piratas!...)

para ser ainda mais lugar-comum,
estás mesmo sozinha na ilha:
és só tu e o mundo
numa guerra de sobrevivência

e tu és todo o mundo
que quer sobreviver
(não te esqueças das feras existentes
nem dos piratas e canibais
que acedem à ilha
com a maior das facilidades!)

e, nesse entretanto,
forjas um óculo
vindo não sabes de onde,
pois não trouxeste contigo
senão os remos
e a blusa molhada
com que adormeceste

nessa noite
sobes a um coqueiro
e debates-te com um sagui
que disputa contigo um coco maduro

exausta,
adormeces,
o luar como lençol,
um calhau como mesa de cabeceira...

acordas com o rugido da maré

banhas-te desnuda
na praia benfazeja,
sentes o sal entrar-te no corpo,
invadir-te as portas,
alargar-te os poros...

lá longe,
uma vela anuncia-se
— como farás tu os sinais de fumo
que viste num filme? —

mas algo se passa,
nesse lá longe...

trata-se apenas duma balsa,
uma jangada,
talvez mesmo só uma canoa

terás agora o teu sexta-feira?

(c) Carlos Clara Gomes

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