sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

não te iludas


não te iludas:
eu não trago documentos
que atestem meu amor
nem outro qualquer papel
certificado em notário
com um qualquer selo branco


não te iludas:
esta nau onde navego
é a cama que te ofereço,
é maremoto e diáspora
e também nave celeste
em contínua viagem

não te iludas:
vou ser pagem, escudeiro,
cavaleiro sem couraça
dos que combatem dragões
e cantam tua vida em verso
na rima dum madrigal

não te iludas:
nada mais tenho a dar
se não todo o meu ser
e algo mais que consiga
do saque de algum navio
que se cruze em meu caminho

não te iludas:
serei sempre teu corsário
teu alaúde, teu verbo
tua romança, teu cravo
e também, se me deixares,
teu poema preferido

não te iludas:
vou despir-te ao fim da noite
numa cama de murmúrios
entre lençóis sem debrum,
a lua entrando pelas frestas
da persiana insolente

não te iludas…

© Carlos Clara Gomes

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