sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

o filme


os sonhos?…
são fumos da noite,
entrelaçando esparsas alegrias
com infelicidades correntes


os sonhos
não batem à nossa porta:
trazem com eles
a chave de casa
e estremecemos quando não aparecem
— ainda que sob a forma de pesadelo
gostamos de sonhar sempre —

por vezes os sonhos
proporcionam-nos desagradáveis momentos:
ali ficamos estremunhados
até percebermos o raio de sol,
as gotas de chuva que vivem na rua

os sonhos
são flashes,
fugazes,
etéreos,
breves e doentios,
que nos marcam
e condicionam toda a nossa vida
durante
os subsequentes dias deles sonhos,
até que sobrevenha outra noite,
outro sonho…

os sonhos
são o que são…
valem apenas
o que valem
e ninguém troca sonhos
por outros objectos,
ninguém faz uma retoma dum sonho
— já imaginaram:
“troco um sonho sobre a minha morte
pelo teu candeeiro de pé alto”
ou
“queres trocar o meu sonho assim-assim
por um leitor de cassettes
e dás mais cinco contos?” —
são altamente improváveis tais questões…

mas os sonhos…
esses demónios
expugnam-nos o sótão
a coberto da desfadiga
e inquietam nossos corpos
e nossas almas
e, sobressaltados,
amanhecemos sem recordar
o que sonhámos nessa noite,
nos últimos penosos minutos dessa noite,
nos primeiros saborosos minutos dessa noite
e afoitamo-nos,
por vezes,
escuro adentro,
improvisando
um sono sem sonhar
quando,
às claras,
improvisamos quase sempre
um sonhar sem sono
e vamos tropeçando
num daninho e manhoso elemento
fornecido por um sonho,
por esse calhorda!…

e somos povoados
por sonhos
de todas as espécies, famílias e géneros:
a cores e a preto-e-branco,
com filtros sépia ou cinza,
24 frames per second,
technicolor ou cinemascope,
dolby sorround
ou com som três dê

escrevemos assim
o script do filme da nossa vida
na névoa difusa dum sonho,
projectando-o no écran da nossa mente,
mentindo,
mantendo ilusões

como nos filmes, aliás…

(c) Carlos Clara Gomes

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