sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

era preciso


era preciso
um mar revolto,

era preciso
uma era de convulsão,
uma nova era
para que eu trepasse
pela hera
da parede de tua casa
com as latas de spray
vermelho e negro
no bolso do cu das calças
e pintalgasse
em preto e rubro
— o que estivesse mais à mão,
escolhe... —
palavras ardentes,
frases inflamadas.

se calhar,
uma única frase,
de certeza
uma única palavra,
uma leve e incomplexa palavra
sem grande oratória,
desprovida até
de qualquer eloquência
(encerrando nela
tanto sentido que,
afinal,
seria só um)
a coberto da noite,
no negro da sorna,
do vermelho do sangue
que cá dentro flui,
os galos cantando,
anunciando a urgente alvorada
numa quinta lá longe.

e tu virias em desordem ao postigo,
o caixilho da janela
emoldurando teus caracóis
enquanto eu te sonegava minha presença,
iludindo tua vigilância,
clandestino,
escuso,
furtivo,
oculto no matagal da púbere hera
— eu próprio imberbe
e púbere,
exacerbado,
sofrido —
apregoando-te minha noiva,
sem que tu própria o soubesses...
(olha só a minha figura,
se alguém aqui me vê
pendurado na trepadeira...)

tu, porém
— ainda bem —
não me viste,
ficaste sem saber
qual o autor do gracejo,
da chalaça sincera,

quem, nessa noite,
te cobiçou,
desejando-te,
querendo ser teu lençol,
teu atrevido inquietador do sono
e dos sonhos.

afinal,
quem foi
que escreveu na parede de tua casa
a lacónica declaração:
«amo-te» ?

© Carlos Clara Gomes

Foto: Xavier Jamir

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