sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
lá fora
lá fora chove em bica
caem sobre nós os estalidos
das corcódoas da lareira
que alimentamos
nos intervalos das nossas batalhas
aqui construímos nosso mundo
— nosso mundo de sofrer,
afinal —
mas lá fora
é que inventámos ser pássaros,
onde questionámos
uma dinâmica de massas
na penúria da tolerância,
na brutalidade da incompreensão
nas manhãs ocorrem
cotovias canoras
e outras aves multicores
e chilreantes
e o mar agita suas mantas,
seus lençóis,
suas fronhas sobre a areia da praia
em alvoroço,
estremecendo as rochas
mas nós cá estamos,
à lareira,
ocultos de olhares bucaneiros,
ao abrigo de malsins,
urdindo o reviralho,
conjurando estratégias
e outras metódicas soluções
visamos uma qualquer insureição,
quiçá armada
(quiçá violenta?)
e acabamos sempre
por optar pela legitimidade da democracia,
pelas escolhas dos cidadãos
e enquanto,
lá fora
(onde tudo, afinal, se passa…),
comboios partem e chegam
aqui,
nós arriscamos quedarmo-nos
por hipóteses nebulosas
de revoluções sem sucesso garantido,
uma vez que,
lá fora,
o sol brilha
e aqui é sempre espessa noite
(e nem sequer temos o luxo
do anonimato em plena mole)
somos quem somos,
foragidos com a cabeça a prémio,
posta a prémio por aqueles por quem lutamos,
por aqueles por quem nos crucificamos,
por aqueles por quem arrastamos
a pesada madeira
numa atroz via-sacra sem regresso,
coroada de espinhos
e exposta à chacota e ao dichote
mas lá fora é que é bonito!…
lá fora…
lá fora há oceanos e fragas,
coisas que só vislumbramos
em postais dos correios
e revistas do jet-set
com imagens de cancún
mas lá…
lá fora…
lá fora a vida ferve,
o turbilhão queima e devora o tempo…
os namorados atrevem-se
a dar as mãos
e até há quem enlace a amada pela cintura…
e o sol,
mesmo quando oculto,
sabemo-lo lá semeando centelhas…
enquanto nós vamos remexendo a lareira com a tenaz,
avivando um fogo condenado,
um fogo tão breve
– quase fátuo —,
enfatizado pelo discurso silencioso,
por olhares e aromas…
algures
(lá fora…)
crescem rododendros
e orquídeas
e mesmo os crisântemos têm sol,
repetindo-se,
redundando-se na função clorofilina
todas as noites,
como um maquinejar regular,
obstinado…
aguardando o astro rei,
a esfera solar,
mal o galo canta e se consuma a noite…
e, também,
mal os apaixonados amantes
descansam da orgia,
mal os zombies saem dos ataúdes
rumo a uma falsa vida
© Carlos Clara Gomes
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