sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
caderno reivindicativo
quero poder sair à rua!
quero que a rua possa sair à rua!
quero que a rua se vomite nas casas,
nas famílias,
no passepartout da cómoda,
na cozinha,
na sala de jantar,
na cozinha travestida de sala de jantar!...
quero que a rua
seja mais do que uma flor vermelha,
mas que o seja sempre!
quero que a rua me entre portas adentro,
coração adentro,
pulmões adentro
para gritar bem alto:
eu amo a rua!
quero amar a rua!
quero amar na rua!
quero entrelaçar os dedos nos teus dedos.
na rua.
quero amar-te na rua…
quero empunhar um pendão,
um estandarte
– até um qualquer manhoso cartaz de papelão
onde possa escrever com uma qualquer tinta
as palavras que me escorrem da alma,
escorrendo para o chão
e tingindo a calçada!
quero sair à rua!
quero rir-me na rua,
quero rir-me da rua!
quero enfrentar a nudez da rua
no meio duma multidão sôfrega de rua,
ansiando pela posse da rua,
babando-se de desejo,
desejando a rua com todo o tesão
que a rua lhe possa dar,
desejando a rua
com um superlativo tesão!
quero esquecer a casa
por momentos.
quero acreditar por momentos
que não tenho casa,
que não quero ter casa
pois a minha casa é a rua…
quero ignorar o bom-senso,
o senso comum,
a prudência,
o tacto,
o fair play:
quero poder dizer um chorrilho de palavrões,
um rebanho de caralhadas!…
quero não ter paciência!
quero impacientemente desesperar,
que se me tolde o critério,
que me enjoe a paz podre,
que me repugne a calmaria…
quero a tempestade urgente,
insurgente,
quero a borrasca iminente,
quero!…
quero que a rua se inunde,
quero assaltar a vergonha…
quero desesperadamente a rua…
quero um dia acordar e dizer:
que lindo dia para sair para a rua!
quero perder-me na rua,
entrar por quelhas e becos,
machete em punho
roçando o mato da rua,
abrindo veredas…
quero que a voz enrouqueça
no meio de tanto ruído.
quero fazer parte do ruído,
quero ensurdecer os pacatos,
ensandecer os atinados,
irritar os conformados.
quero ser sal no café
e nunca mel no vinagre!
quero exigir o que é meu,
que é tão pouco,
sendo muito!
quero exigir o que é teu,
o que é nosso…
quero conquistar ameias
e muralhas
e barbacãs!
quero a tua força na minha força,
escritos no ventre da terra desnuda…
quero daqui por uns anos
olhar de soslaio o inteligente que,
agora calado e quieto,
dirá imbecil
que estas minhas palavras são demodées,
e me chamará de neo-realista
do alto do seu penteado de turno,
no seu calçado à moda,
anotando banalidades no seu moleskine digital,
entre uma bebida da moda
e um vício da moda
olhando para a rua sem aquilatar da sua sabedoria…
quero insultar os cínicos,
os que não respeitam a rua.
quero!
© Carlos Clara Gomes
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