sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
e tua pele de mistérios perceber
murmurar tantos rios no teu ventre
e tua pele de mistérios perceber
ser teu arco, tua flecha, teu resguardo
ser um rio e em seus seixos escrever
de tormentas e países ocupados
ser das nuvens um tão breve espectador
em fortalezas e enseadas de corsários
ser grumete, caravela, imediato
ter teu nome tatuado em minhas veias
ser procela, ser levante, ser a nau
onde embarcas para noites sem repouso
onde o sono é ausência desejada
e dizer-te caminhando pela estrada
quais caminhos se caminham sem cajado
e que noites e marés são coisa breve
quando a lua acha graça ao teu riso
e tentar numa manobra melindrosa
perceber toda a vida dos jasmins
e seu cheiro entender sem passaportes
ou candeias que nos guiem na procela
e na praça da cidade tuas nádegas
afagar em gesto arisco e obsceno
e entender a sabedoria dos silêncios
que nas almas construíram anteparo
e as alvoradas que me plantas no regaço
fazer delas documento imorredouro
e ter sede de mudar para outra casa
quando o sol se recusa a ser menino
e colher erva-de-cheiro em teu sorriso
e bandeiras com serpentes desenhadas
de exércitos profanos que despontam
na fímbria da manhã por inventar
e guardar na algibeira este momento
pois o dia já revela suas gárgulas
e a garganta dos poetas e cantores
já se seca sem teu beijo de bons-dias.
© Carlos Clara Gomes
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