sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
fel
não sei
que trago cá dentro,
não sei
não sei
se é sal ou vinagre
o que quer que seja
traz algo de amargo para a alma
é algo molesto nos lábios,
algo ácido na língua
não...
até dormi bastante esta noite...
sim,
até dormi descansado...
não,
não tenho inquietações...
como poderia?
tudo me corre de feição...
quer dizer...
quase tudo
o quase?...
não sei
fui ensinado
que nunca ninguém tem tudo,
por isso respondo assim,
nunca deixo a luz da reserva acender
já viram alguém dizer:
hoje sinto que tenho tudo o que é possível ter...
seria caso para contestar:
mas se já tem tudo,
o que é que anda cá a fazer semelhante criatura?
é evidente que ninguém tem tudo:
é evidente que alguém tem muito.
assim como é evidente que muitos têm pouco
já não é assim tão evidente
que este estado de coisas tenha de ser sempre assim...
mas isso, sou eu quem o diz, não é coisa para dar crédito...
por conseguinte, passemos adiante...
íamos no tal amargor...
estávamos a dissertar
sobre o grau de acidez do mesmo
e sobre as suas hipotéticas origens
há quanto sinto isso?
não sei...
deixa cá ver...
ora aí está uma pergunta assaz interessante!...
acredita que não me lembro
quando comecei a senti-lo?
não, não foi só hoje...
nem só desde ontem, sequer...
se já o senti mais vezes este mês?
sim…
aliás: não...
para ser mais vezes
era preciso que essa sensação
se esgotasse pelo menos uma vez,
o que já faria duas vezes se contarmos com esta...
assim era plural...
mas não...
acho que este mês
carreguei sempre este amargor comigo...
para ser mais exacto...
acho que durante todo este ano...
espera aí!
há já vários anos que sinto isto...
seguramente...
talvez tenha tomado consciência disso
apenas agora
alguém se lembra há quanto tempo existe?
alguém se lembra de ter nascido?
você?
não…
você não se lembra disso...
julga que se lembra
mas foi com certeza a senhora sua mãe
quem lhe contou.
no entanto,
apesar de não nos lembrarmos do nosso nascimento
nós sabemos que nascemos
porque existimos,
tal como eu sei que esta sensação surgiu, doutor,
apesar de não me lembrar nem do como nem do quando
e apesar de o senhor me dizer
que isto tem causas psicossomáticas
ou seja lá o que for,
o certo é que eu sinto isto...
e inquieta-me mais não saber
como deixar de o sentir do que senti-lo.
acredita nisto, doutor?
é normal?
acha mesmo?
pois é...
a gente atormenta-se com cada coisa,
não é?
até
— e sobretudo —
com coisas
de que não sabemos a procedência
muitas vezes esta ansiedade
leva-nos a extremos,
pois,
no afã de buscarmos
a sua completa explicação,
deparamos connosco carregando
um enorme saco
com mais amargores...
mas porquê?
porquê?
será, talvez,
pelo estado de coisas
que nos destinaram como vida?
mas para isso não há já
o remédio eleitoral?
diga lá doutor,
você é que sabe de medicamentos:
isso não cura nada, é?
pois é doutor, acho que você afinal
não percebe nada disto.
acho que a doença que eu tenho
é mesmo por causa
das certezas certas que me ensinaram
(e a si também...)
acho que isto se chama inconformismo
(que pena não acabar em ite,
não é doutor?
assim sempre a poderia tratar...)
sabe,
o único remédio para isto
é a transformação das coisas,
dos homens,
das casas,
sobretudo dos homens
e isto de que você me quer curar
é a energia de que se alimenta tal transformação,
é a sanha que tudo faz avançar,
é a loucura de curar a consciência,
é a consciência de cometer actos tresloucados
por favor,
não me cure disso,
doutor!...
(c) Carlos Clara Gomes
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário